@revistaentrepoetas / @professorrenatocardoso

120 cliques

o trenó torto – Crônica

Num fim de tarde abafado, a brinquedoteca parecia respirar junto com as crianças: um sopro de riso aqui, outro de concentração acolá. Era quase Natal, e na televisão desfilavam aquelas imagens que parecem sempre vir do mesmo sonho estrangeiro: Papai Noel de barba impecável, renas luminosas, neve que nunca cai por aqui. Eu deixava a TV seguir seu curso enquanto acompanhava, com o olhar terno de quem cuida, os pequenos universos que se abriam no chão.

Ele, o menino de quatro anos que me adotara como companhia preferida, estava entregue à massinha com a solenidade de um escultor. O corpo todo dizia que ali havia obra. O silêncio dele era cheio de sentido. Até que se levantou, decidido, e trouxe um pedaço de massinha amassado entre as mãos minúsculas.

“Quero que você faça pra mim um trenó igual ao da televisão”, disse, sem negociar, sem hesitar. Disse como quem convoca um talento, como quem confia.

Aquela confiança me atravessou como uma dessas luzes piscantes de árvore de Natal: breve, quente, impossível de ignorar. Fiquei olhando o bloco de massinha, fingindo que avaliava tecnicamente a tarefa, mas, na verdade, tentava conter o riso doce de quem sabe que não tem a menor habilidade manual para aquilo. Ainda assim, algo nele, talvez a fé desarmada de quem ainda não conhece os limites do mundo, me segurou pela mão e me disse: tenta.

E eu tentei. Esculpi um trenó torto, tortíssimo, que nem na mais generosa das leituras poderia ser confundido com o veículo elegante que cruzara a tela. Mas ele, ao receber minha criação, abriu um sorriso tão largo que quase desmentiu a física. Porque ali não era sobre precisão; era sobre vínculo. Era sobre o gesto. Sobre alguém maior se curvar ao pedido de alguém pequeno, não por obrigação, mas por afeto.

Ele acreditava em mim como só as crianças acreditam nos adultos que lhes oferecem colo sem pedir nada em troca. E, por um instante, enquanto ele voava pelo salão com o trenó torto entre os dedos, achei que talvez eu realmente pudesse tudo.


Descubra mais sobre Revista Entre Poetas & Poesias

Assine gratuitamente para receber nossos textos por e-mail.

2 respostas a “o trenó torto – Crônica”

  1. Avatar de Josileine Pessoa
    Josileine Pessoa

    Que lindo!🥰🙌🏽

    Curtido por 1 pessoa

    1. Avatar de psicologoraphaelalves

      Muito obrigado pelo carinho!

      Curtir

Deixar mensagem para psicologoraphaelalves Cancelar resposta

Sobre

Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

Com uma equipe formada por escritores de diferentes idades e áreas do conhecimento, buscamos sempre oferecer conteúdo de qualidade, promovendo o diálogo entre gerações e perspectivas diversas.

Se você deseja ter seu texto publicado, envie sua produção para:
revistaentrepoetasepoesias@gmail.com

Acesse: www.entrepoetasepoesias.com.br
Siga no Instagram: @revistaentrepoetas / @professorrenatocardoso
Canal no WhatsApp: Clique aqui para entrar

PESQUISA