Nem sempre gente imersa no anonimato cotidiano pode afirmar ter conhecido um imortal. Tive tal privilégio. Falo de Evanildo Bechara, gramático e membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupava a cadeira 33, falecido no último dia 22 de maio. Esta crônica é minha homenagem por ocasião de seu sétimo dia.
O pernambucano, nascido em 1928, tinha um currículo impressionante. Elencá-lo aqui ficaria cansativo. Além do mais, é possível acessá-lo na página da ABL (vale a visita). Opto, então, por uma abordagem mais subjetiva e geral.
Entre todas as realizações, destaco sua presença marcante no meio educacional, além dos estudos da língua portuguesa e filologia românica. Confesso, inclusive, ter-me surpreendido o seu início na carreira acadêmica com tão pouca idade, demonstrando brilhantismo. Sua vida, portanto, foi longa, rica e profícua, formando gerações de docentes e pesquisadores.
Conhecer e conviver com pessoas faz parte de ser humano, um animal social por excelência. Sejam elas ilustres desconhecidas ou figuras de destaque, sempre deixam marcas e fazem parte de nosso aprendizado. O próprio Bechara conviveu com dois grandes nomes dos estudos linguísticos: o brasileiro Manuel Said Ali e o espanhol Dámaso Alonso, ambos influenciando sua trajetória profissional. No meu caso, não posso dizer que meu contato com o professor tenha sido tão profundo. Ocorreu, porém, em diferentes momentos de minha formação.
Quando eu cursava o Normal, no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, ele lá esteve como diretor da instituição. Anos mais tarde, fui sua aluna de Filologia Românica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Quando prestei concurso para a mesma universidade, em 1992, ele era o presidente da banca examinadora. Lembro-me, ainda hoje, na prova, da sensação de responsabilidade ao dar uma aula sobre gramática histórica do espanhol para meu ex-professor e filólogo. Finalmente, já aprovada e empossada, embora em departamentos diferentes, fomos colegas, no Instituto de Letras da UERJ.
Ao pensar em personalidades consagradas, temos a tendência a idealizá-las, criando distâncias. Apesar do pouco convívio cotidiano com o professor Bechara, posso afirmar que ele nunca exibiu uma aura de arrogância e distanciamento. É verdade que se destacava da maioria, sempre de terno e gravata, sóbrio e distinto. No trato em sala de aula, contudo, era amigável, respeitoso e deixava patente seu entusiasmo pelo magistério e pelo que ensinava.
Faz bem poder sentir essa naturalidade, ou, melhor dito, romper o mítico e enxergar o humano. Muitos cultivam heróis ficcionais ou entre gente renomada, da moda, rica, influente. Por mim, fico feliz em reconhecer esse traço de heroísmo em pessoas que tanto construíram, sem deixar de mostrar um jeito simples. Por isso, ao docente, pesquisador, imortal, apaixonado pela língua portuguesa e ser humano, Professor Evanildo Bechara, meu muito obrigada e o saudoso adeus.


Deixar mensagem para Helena Masurk Cancelar resposta