(Continuação da crônica publicada em 28 de abril)
O desespero já tomava conta dos refugiados; eu, pelo menos, estava prestes a surtar, quando uma mulher mais próxima da entrada, gritou, para alívio geral, que a chuva estava parando. Em seguida, vimos passar pela banca um casal que, apesar de ter água nas canelas, caminhava devagar, mas tranquilamente.
A passagem dos dois sobreviventes encorajou alguns de nós, que resolveram se arriscar. O primeiro a sair foi o que comprara o jornal, que o utilizou para proteger a cabeça nos primeiros metros. Atrás dele saíram mais dois destemidos náufragos a enfrentar a correnteza do rio formado no chão impermeável da cidade. Relutei um pouco e, para justificar minha permanência na banca, pedi uma revista de passatempos e uma caneta. Ouvi atrás de mim uma voz indefinida.
– Quem tem cabeça pra fazer palavras cruzadas numa hora dessas?
Nem olhei para trás. Não pretendia usar a revista ali. A compra era como um agradecimento ao dono da banca por me acolher naquele porto seguro durante o temporal. Se estivesse lá fora, quem sabe, poderia ter sido arrastado pelas águas da chuva torrencial que caíra sem piedade por quase uma hora. Mas nem me justifiquei com ninguém, porque o portuga compreendeu meu gesto e, ao me dar o recibo da maquininha, lançou-me um sorriso, ou algo parecido, o único naqueles infindáveis minutos que ali passáramos, protegidos da enxurrada que arrastava tudo lá fora.
Percebendo a estiagem, resolvi arriscar e encarei a calçada ainda cheia, mas nem tanto, e segui meu caminho até a casa. Testemunhei durante a caminhada o estrago que a chuva fizera: os carros enguiçados, as marcas da água nas paredes, a lama que se acumulava em alguns pontos e a enorme quantidade de objetos – roupas, sapatos sem par, garrafas e sacos de plástico, embalagens de todo tipo, bonecas, galhos de árvores, um sofá, lixo – represada contra um muro.
Ao chegar fui direto pro banho. Limpo, seco e a salvo, liguei a TV e, enfim, percebi a dimensão da tragédia. Casas em áreas de risco haviam desabado com os moradores dentro, pessoas tinham sido arrastadas e estavam desaparecidas, prédios de classe média tinham também sido invadidos pela água torrencial que, como um tsunami, revirara os carros nas garagens subterrâneas.
Agradeci de coração ao jornaleiro, que me abrigou, mesmo a contragosto, da chuva impiedosa e torci para que os meus companheiros de infortúnio também tivessem conseguido voltar aos seus lares sem arranhões, doenças ou traumas. Sentei-me no sofá da sala e pus-me a fazer o primeiro passatempo da revista que comprara na banca de jornal. Na vertical, a definição da primeira palavra: mau tempo, tempestade. dez letras. Deve ser perseguição.
(Baseado em fatos reais)


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