“scripta manent, verba volant”,
Acho que foi o cronista Rubem Braga quem disse uma vez que o jornal, com tudo que tem dentro, só servirá, no dia seguinte, pra embrulhar o peixe. Isso é do tempo em que havia peixarias e jornais impressos, nos quais eram publicados os textos magníficos do Pelé da crônica. Outros tempos.
Digo isso porque tenho em casa uma série de coisas que perderam a serventia. Dei recentemente para minha filha mais velha um antigo toca-discos. Talvez ela o utilize como enfeite, porque não acredito que tenha em casa discos de vinil. Achei num antigo armário – em que nunca guardei armas – uma máquina fotográfica e um cd-disk. Se revirar bem aquele móvel em que quase nunca mexo, com medo do que acharei em suas entranhas, hei de encontrar coisas do arco da velha, como essa expressão que acabei de usar, tão anacrônica quanto as fitas cassete que sei que se escondem naquele túnel do tempo.
Há, aqui em casa, sobre o móvel da sala, um deslocado cinzeiro, que mantenho ali só para me lembrar, como o Museu do Holocausto, de tempos sombrios, os anos de vida que queimei fumando. Tenho entre os sapatos, poucos, que uso no dia a dia, um par de chuteiras e um tênis de futsal, que no meu tempo chamava-se futebol de salão, lembranças de quando eu corria atrás da bola com prazer, pra mim e pra ela. Hoje, somos daqueles amigos em que a distância carcomeu a intimidade.
Essas coisas antigas – relutei em escrever “velhas” – que guardo sei lá por quê, são marcas do passado. Elas me remetem imediatamente a um momento da vida distante e me trazem lembranças, doces ou amargas, que a vida é acridoce, você sabe, não preciso lhe dizer. Lembro dos discos que rodavam dentro daquela vitrola que agora enfeita um canto da casa da minha filha e sei de cor a sequência de cada LP, lado A e lado B, que ouvi nela. Eximo-me de fazer aqui um glossário; quem não souber o que é LP e que eles tinham dois lados não merece o meu respeito.
Com as palavras ocorre fenômeno parecido ao que agora acomete as coisas daquele armário. Há aquelas que vão perdendo espaço, vindo menos vezes à ponta da língua, do lápis – outro animal doméstico em vias de extinção – e que aparecem cada vez menos nas páginas do word em que digito minhas mui mal traçadas linhas semanais. Os objetos que representam saem de cena, e elas, sem sentido, perambulam, atrás de um novo significado, de um novo uso. Fico pensando, por exemplo, na felicidade do substantivo ficha quando renasce na expressão “a ficha ainda não caiu”, rejuvenescida num frasema que é utilizado com frequência até por gente que nunca viu um orelhão. Na falta de um comboio de vocábulos, como esse, em que se metem para continuar sua viagem na língua, sozinhas, elas caem no esquecimento e desaparecem, restando apenas sua lápide e seu obituário, no cemitério de palavras em que todas terminam, o dicionário.
Alguém, há muito tempo, disse, “scripta manent, verba volant”, talvez querendo dizer que o que se escreve vive para sempre, ou pelo menos enquanto durar a mídia em que foi registrado; já o que se fala, some no vento, não permanece. Não sei, não. As coisas que eu tenho naquele depósito de quinquilharias sobreviveram ao seu tempo, mas não têm hoje a menor utilidade, a não ser evocar lembranças e histórias, como fazem os objetos que enfeitam as estantes dos colecionadores. Não sei se isso é vida. Talvez sejam mortos insepultos, como as múmias que dormem eternamente em museus.
Pensando aqui: há pessoas que vivem tanto, que perdem a utilidade. Ficam por aí, vagando da cama pro sofá da sala, de consultório em consultório, a nos lembrar que é para lá que vamos, se não morrermos antes, claro. São como o inconveniente cinzeiro da sala, ou como a máquina de tirar retratos, que só serve hoje de peso de papel e como provas de que o passado existe e lá deve ficar, e que com ele teremos um dia de prestar contas.
Eu, cá com meus botões, prefiro sumir junto com a serventia e com o meu significado neste mundo. Não quero perambular por aí insignificante, como o videocassete inútil que não tem mais onde se reproduzir, nem como o toca-discos, que guarda músicas que não se ouvem mais. Quero, como ouvi de um filósofo, dia desses, que a morte me encontre vivo. E que as palavras que escrevo em crônicas como esta vivam ainda muito, para que eu permaneça por aí além de mim. Será que é pedir muito?

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