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CASO LOCAL

Uma senhora de baixa estatura, bem magrinha e usava um lenço com estampas florais que cobriam os cabelos grisalhos. D. Isolina, até aquele dia, era uma desconhecida. Apenas os seus doces eram famosos, ela trabalhava na panificação do bairro.

Ninguém sabia que ela morava sozinha, em um pequeno quarto em cima da padaria, até aquele dia.

Para uma senhora com mais de cinquenta anos, aparentava bem menos! Um pouco tímida, mas gostava de conversar. Portanto, foi assim que eu a conheci: na fila do caixa de um supermercado. Com a demora no atendimento, iniciamos uma agradável conversa, aprendi novas receitas, dicas de pratos rápidos, mas também observei que seu carrinho estava repleto de carnes congeladas, pote de sorvete, frutas e muitas verduras. Ela segurava dois maços de alfaces, em um dos braços, como um buquê de flores e me contou orgulhosa sobre a compra de uma geladeira duplex, por isso levava tanta coisa.

Havia muito peso para uma senhorinha. Ofereci uma carona, ela prontamente aceitou. Quando chegamos ao local. Vimos um tumulto na calçada da padaria. Os entregadores deixaram a mercadoria na entrada, porque era tão grande em altura e largura que não passava pela porta estreita, bem como na escadaria, igualmente pequena.

D. Isolina sentou-se na calçada e começou a chorar. Curiosos paravam para olhar, o tráfego tornou-se lento e alguns pedestres andavam entre os carros por causa da aglomeração.

Olhei para as sacolas, já pingavam com o forte calor. Pedi ao gerente que guardasse no freezer da padaria, como empregada e moradora pensei em algum direito, ledo engano. Ele disse que não tinha espaço. Não existia ali espaço para as compras e, a geladeira e tampouco para D. Isolina. Ela não percebia isso, voltou a chorar. Sugeri a minha casa, poderia fazer uma refeição, tomar um banho e tentar outras formas para resolver, no entanto, ela não aceitou. Permaneceu ali, sentada ao lado da enorme caixa de papelão.

Eu também necessitava guardar minhas compras. Uma hora depois, voltei ao local. O engarrafamento aumentou em dobro! Uma viatura da polícia e até uma equipe de reportagem. Muito tumulto, olhei ao redor a procura de D. Isolina sentada no carro da imprensa, naquele momento, atendia a ligação de um parente que assistira à notícia e a reconheceu.

Seu coração transbordou de felicidade! Não seria mais uma pessoa sozinha. A repercussão foi tão grande que ela foi convidada para uma entrevista na TV, assim todos souberam de como ela sobrevivera, até aquele dia. Hoje tem um canal na internet e ensina receitas de suas delícias.

Uma pessoa doce não pode ter um destino amargo.

Ivone Rosa

@profaivonerosa

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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

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