Meu amigo, você tem que se amar um pouco
Pra não acabar ficando louco
Cada vez que um amor se vai
Eu entendo esse teu jeito meio patético
Faz parte do teu arquétipo
Se perder quando ama demais
Freud explica esse desejo bobo
Esse impulso sempre novo
Essa fome por mais
É incrível o espetáculo circense
Essa postura meio nonsense
Sem querer culpar seus pais
O amor não deveria ser tão burocrático
Era só se dar
Mas o teu jeito de amar
É tão performático
Não sabe parar
Eu te vejo pelos cantos
Escrevendo cartas de amor
Encomendando flores
Passando em confeitarias no caminho de casa
Pra comprar fatias de torta de limão
Eu te vejo rabiscando iniciais na parede
Ouvindo Djavan a madrugada inteira
Dando beijos apaixonados na chuva
Assistindo o pôr do sol no Corredor da Vitória
E isso é tão bonito
Essa tua maneira exagerada
Quase cinematográfica
De transformar o afeto
Numa espécie de religião
Mas tudo pode acabar a qualquer momento
E eu sei que cada despedida
Te atravessa como se fosse a primeira
Porque você ama sempre do começo
Mesmo quando já conhece o fim
Sabe amigo,
Eu entendo esse teu medo,
Mas deixa eu te contar um segredo
Todo mundo que ama
Ama como se nunca tivesse amado antes
Todo mundo ama como ninguém jamais amou
Mas chega uma hora
Em que a gente percebe
Que também merece ser amado pela própria vida
E quando você finalmente se olha com carinho
Sem precisar se abandonar por ninguém
O mundo deixa de parecer tão pequeno
Porque existe um amor muito bonito
Na calma de voltar pra si
De fazer café numa manhã qualquer
De ouvir uma música sozinho sem sentir vazio
De sobreviver aos fins
E continuar inteiro
E talvez se amar seja isso
Continuar sensível
Sem deixar que a dor convença você
De esquecer de si mesmo
Mas quer saber, amigo? Eu também odeio os finais!

