O gratificante no compartilhamento de memórias são a intimidade e o carinho envolvidos. Isso porque, em geral, os episódios têm um valor emotivo e dividi-los com alguém demonstra consideração e proximidade; em essência, uma forma de manifestar afeto.
O evento que reconto nesta quinzena me foi narrado por uma amiga contadora de histórias. Ela imaginou, ao vivenciá-lo, como eu poderia lhe dar vida por meio de uma crônica. Passou do pensamento à ação, enviando-me uma síntese do sucedido por mensagem de texto. Em tempos tão conturbados, a sua confiança em mim e o fato partilhado em si chegaram carregados de luz.
Aconteceu quando ela voltava para casa. Ao chegar ao prédio, cumprimentou, pediu licença para entrar e, numa dessas coisas que acontecem sem sabermos a razão, olhou para baixo. Viu, então, sobre o capacho, enredada num emaranhado de cabelos e poeira, uma libélula.
Encarou-a e lhe disse que morreria se ficasse ali, mas juntas poderiam tentar uma solução. Com muito cuidado, segurando-a pela borda da asa, foi retirando parte do lixo que a aprisionava. A teia artificial, contudo, era bastante intrincada. Procurando acalmar aquele ser, lhe dizia baixinho para se agitar e, dessa forma, ajudar no processo. Tudo fazia com delicadeza, a fim de não lhe ferir.
Quando parte da tarefa estava cumprida, viu uma touceira próxima e considerou um lugar adequado para a libélula se firmar e desprender o restante dos detritos. O inseto se debatia e cansava, esperneava e pausava, ao som daquela voz encorajadora: “Não desista! Vamos conseguir.”
Assim, com persistência, removeu toda a teia. Livre, pôde alçar voo. Ainda pousou três vezes sobre a mão que a havia resgatado, para, finalmente, ir embora.
Esta semana é importante para várias pessoas pelo mundo afora. Independente do seu significado religioso, traz uma mensagem recordatória de nossa capacidade e vocação para sermos solidários, amorosos, pacíficos, mesmo quando tudo ao redor parece indicar o contrário. O bem constrói pontes e correntes, aproximando, unindo e fixando, nos permitindo reconhecer no outro um igual merecedor de atenção, tal qual a mulher e a libélula.


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