Estamos chegando ao fim do mês de março, mês das mulheres e, assim como narrei nos outros textos que trouxe por aqui, ainda temos muito mais a nos entristecer do que a comemorar no trilhar das mulheres, principalmente em relação ao grande número de violências e mortes.
Queria trazer a baila o caso do estupro coletivo realizado por quatro adolescentes contra uma menina menor de idade que era ex-namorada de um deles.
Tão absurdo, pavoroso, cruel, violento e asqueroso foi tal esquema, que fiquei refletindo o quanto sofreu esta adolescente.
Quando ela foi convidada pelo ex-namorado para um encontro amoroso e foi encontrá-lo, tenho certeza que algum sentimento ela ainda nutria por ele, afinal, quem que ao ser convidada a encontrar um ex-namorado e nutre sentimentos ruins em relação a ele, ainda assim aceita encontrá-lo? Logo, é lógico que ela ainda gostava dele.
Pois é, imagine tamanha decepção emocional, moral, a dor física, psíquica e na alma desta garota?
Eu imaginei… Meu coração doeu, meu estômago se contorceu, minha garganta apertou porque tudo que ela sofreu é inimaginável, mas é um dos maiores medos de uma mulher, medo este que nos ronda diariamente, o medo de ser violada contra sua vontade.
Mais triste ainda é saber que estes meninos, que realizaram o pavoroso ato, o fizeram de caso pensado, premeditado.
Rapazes que são os futuros homens, que atuarão em nossa sociedade como adultos dentro em breve.
Adolescentes de alta classe social, estudantes de boas escolas, moradores de bairro nobre…
Há que se mencionar que um deles ao se entregar à polícia não demonstrou nenhum arrependimento nem vergonha, olhou para as câmeras de cabeça erguida, usando uma camisa cujos dizeres em inglês traduzidos trazem “não se arrependa de nada” – basicamente um escárnio à sociedade, à polícia, à justiça, às mulheres e principalmente à vítima.
Estes mesmos tipos de adolescentes de classe alta, assim como muitos outros homens, estão propagando um pensamento misógino, violento, repleto de discurso de ódio contra as mulheres através de um movimento chamado “red pill”, simplesmente inconcebível em pleno século XXI.
Esse aumento exorbitante de crimes virtuais, psicológicos, físicos e tantos outros que vem aumentando e se perpetuando de forma aberta e reiterada, levando à morte de muitas mulheres, seja pelas mãos dos homens, seja por morte emocional, social ou até mesmo o suicídio – tendo em vista que os crimes virtuais e de estupro se perpetuam em ciclos que se estendem por toda a vida das vítimas – levou à votação do projeto de lei que foi aprovado pelo Senado Federal em março de 2026, o qual equiparou a misoginia ao crime de racismo, tornando tal crime discriminatório também inafiançável e sem prescrição. Ressalte-se que o projeto de lei que criminaliza a misoginia ainda precisa ser aprovado pela Câmara dos Deputados e sancionado pelo Presidente da República.
Infelizmente, ainda escutamos pessoas atuando contra tal projeto de lei com falácias esdruxulas e sem nexo, mas que na verdade vem carregadas de medo pois são essas mesmas pessoas que proclamam e disseminam também esse tipo de discriminação, inclusive incitando e colocando os homens na condição de vítimas ou de “atuantes por instinto”… Mais desolador ainda é que inúmeras destas falas vem de mulheres…
Você com certeza já ouviu alguma dessas frases quando tem ciência de algum caso de estupro:
“Também, olha onde ela estava naquela hora da noite!”
“Se foi é porque estava querendo”
“Com aquela roupa, só poderia dar nisso!”
“Ela não deve ter feito uma oração com fé ao sair de casa para Deus protegê-la”
Frases horríveis, nojentas, abomináveis, umas até usando o nome de Deus e, cotidianamente ditas para vítimas de violência sexual, que muitas vezes preferem se calar do que denunciar por medo de ouvirem coisas deste tipo de familiares, amigos e, até mesmo de profissionais que as atenderão nos hospitais e na delegacia.
E, infelizmente, isso realmente acontece…
Você leu as frases discriminatórias que eu escrevi acima e sabe que elas são ditas de forma mais corriqueira do que se imagina, não é?
Mas o que dizer do caso da freira de 82 anos que foi estuprada e morta dentro do convento no Paraná?
O que falar da roupa que ela usava? Do local que ela estava? De ter rezado pouco para Deus protegê-la? Ela estava querendo?
Nítido é que essas frases nunca deveriam ser usadas, nunca é a roupa, o local, a quantidade de oração, NUNCA É CULPA DA VÍTIMA, MAS SIM DO CRIMINOSO! ELE QUE É CULPADO!
Neste momento em que estamos vivendo, mais do que nunca, precisamos nos unir para que mulheres nunca mais falem frases absurdas sobre outras mulheres ou tentem atuar impedindo que as punições sejam veementes contra agressores, bem como, toda a sociedade deve e precisa atuar contra toda e qualquer forma de violência, seja qual for ou contra quem for, mas que todas elas, quando ocorridas sejam punidas com rigor legal e com atos educativos para evitar a reincidência.
Michelle Carvalho
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