@revistaentrepoetas / @professorrenatocardoso

6 cliques

A coisa mais importante

“O futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes.” A frase, de origem controversa, ouso dizer, está errada. Para mim, o velho esporte bretão é o que há de mais fundamental no mundo, na vida. O resultado de um jogo tem o poder de me deixar pra baixo como se eu tivesse perdido uma pessoa muito querida. Ou, ao contrário, uma vitória pode me levar a um estado de satisfação e felicidade que não senti ao passar num concurso super-rigoroso, ao trocar o emprego insalubre em que sofria todos os dias por outro mais vantajoso e agradável ou mesmo ao trocar de carro. Felicidade maior até do que a que senti quando, enfim, realizei o sonho da casa própria — o que talvez explique por que a sala aqui de casa foi pensada mais para a televisão do que para a mesa de jantar.

Não sei de que maneira desenvolvi ligação tão intensa com esse esporte. Gosto tanto de futebol que quase bati o carro uma vez acompanhando uma pelada de rua em que havia a iminência de sair um gol. Já perdi horas assistindo a um jogo chinfrim na praia — daqueles em que ninguém sabe direito quem está ganhando, em que oito jogadores disputam a mesma bola, em meio metro quadrado de areia — e me contorço todo para ver, do ônibus, o fim de uma jogada quando passo pelo Aterro recheado de peladas arrebatadoras. As tevês enormes de restaurantes e bares atraem automaticamente o meu olhar sempre que vejo aquele fundo verde do gramado e, sobre ele, imponentes, jogadores de qualquer time disputando a bola. Nessas horas, sou abduzido pela tela, paro a caminhada, a corrida ou o passo para ser conduzido pela bola, seguindo-a aonde for, até ser chamado de volta à vida pelos compromissos, pela companhia ou pelos pedestres que atrapalho parado na calçada como um poste.

O futebol é apaixonante por sua propalada falta de lógica, pelo imponderável que ronda as partidas. Um time pode ser atacado o jogo inteiro, ficar quase sempre sem a bola, nas cordas, e, ainda assim, vencer numa estocada individual, num escanteio, num chute lá do meio da rua, num contra-ataque fugaz. Assim como no boxe, em que um lutador pode apanhar a luta inteira e ganhar num único golpe, bem dado e certeiro, no queixo do adversário — que já está cansado de bater, porque isso também cansa, um time pode sofrer o tempo todo e ganhar de um a zero.

Do mesmo modo como, imagino, somos atraídos ao circo por um desejo inconsciente de ver o equilibrista cair ou o acrobata se esborrachar na rede de proteção, vamos aos jogos — ou assistimos a eles pela TV — sempre com uma pulga atrás da orelha. No fundo, sabemos que tudo pode ir por água abaixo numa bola mal atrasada, numa falha bizarra do goleiro, numa cochilada da defesa ou, é claro, na ineficiência dos atacantes que insistem em perder gols feitos. Há jogadores que, diante do gol aberto, conseguem a proeza estatística de acertar exatamente o único lugar onde o goleiro está, ou uma das traves, que têm 12cm de espessura, e não o gol, que tem 17 metros quadrados de área frontal.

A aura trágica que cerca qualquer partida é o que torna o futebol irresistível — além, naturalmente, da plasticidade de suas jogadas.

Ingrediente importantíssimo desse espetáculo dramático é o juiz, que pode, como um deus menor, ditar sub-repticiamente o destino de uma partida: cozinhar o jogo, permitir a cera, interpretar mal um lance, marcar um encontrão como falta ou deixar de marcar a falta por considerá-la apenas um encontrão. Investido desse poder, ele se assemelha a um César no Coliseu, decidindo quem vive e quem morre. No futebol, quem vence continua empregado, vira campeão, fica sob os holofotes da mídia, conquista as premiações mais fartas, os melhores patrocinadores. Quem perde, muitas vezes por uma decisão equivocada da arbitragem, perde também — além dos pontos — o campeonato, a autoestima, o emprego, a paz.

Por isso, sempre que ouço alguém repetir que o futebol é “a coisa mais importante entre as menos importantes”, fico em dúvida. Talvez seja verdade para quem consegue desligar a televisão depois do jogo e ir dormir em paz. Eu, infelizmente, nunca tive esse talento.


Descubra mais sobre Revista Entre Poetas & Poesias

Assine gratuitamente para receber nossos textos por e-mail.

Deixe um comentário

Sobre

Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

Com uma equipe formada por escritores de diferentes idades e áreas do conhecimento, buscamos sempre oferecer conteúdo de qualidade, promovendo o diálogo entre gerações e perspectivas diversas.

Se você deseja ter seu texto publicado, envie sua produção para:
revistaentrepoetasepoesias@gmail.com

Acesse: www.entrepoetasepoesias.com.br
Siga no Instagram: @revistaentrepoetas / @professorrenatocardoso
Canal no WhatsApp: Clique aqui para entrar

PESQUISA