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a dor da rosa

Uma rosa. Um jardim. Uma festa.
A pequena rosa brincava todos os dias com as demais flores. Lírios. Jasmins. Orquídeas. Margaridas. Tulipas. Girassóis. Cravos. A mãe-rosa precisava chamá-la para dormir. “Deixa eu brincar mais um pouco, mãe!”. Era assim todos os dias. Uma brincadeira sem fim. Alegre. Divertida. Feliz. Livre.
Mas rosa não era uma rosa qualquer. Os pulgões, que adoram sugar a seiva dos brotos, se derretiam diante daquela meiguice. As lagartas, devoradoras selvagens, contentavam-se em apreciar a beleza da rosa. Os tripes, que se escondem dentro dos botões florais fazendo com que as flores fiquem deformadas, não se atreviam a tocar nela.
Certa noite, a formiga-cortadeira cortou toda a roseira, mas rosa amanheceu lá, majestosa. Nem a mosca-branca, nem as lemas-rosa, nem as cochonilhas ousavam tocar em rosa. Até esses insetos entendiam e apreciavam a beleza dela. Os besouros-japonês, quando se aproximavam de rosa, simplesmente adormeciam, encantados. Os beija-flores se revezavam para beijá-las, e ela, meiga como a mais bela das rosas, sorria, atendendo a todos incansavelmente.
Um dia, rosa amanheceu mais formosa. Mais cheirosa. Mais atraente. Tudo nela era mais. Atraiu olhares. Despertou desejos. Estimulou sonhos. Causou ciúmes. Os beija-flores brigavam para beijá-la primeiro. Rosa sorria, e atendia a todos. Lírios, cravos e girassóis levavam generosas doses de seus perfumes para ofertá-la. Para não causar mais confusão, ela aceitava a oferta de todos. Os insetos chegavam perto de rosa somente para apreciá-la, boquiabertos.
Mas havia um cravo mais atencioso. Simpático. Sedutor. Rosa apaixonou-se. Passou-lhe a dedicar mais atenção. Mais ciúmes aos outros pretendentes. E ele, encantado, sempre trazia-lhe generosas doses de perfume. Os galanteios aumentaram. Deram-se a namoro. Mãe-rosa consentiu.
Não demorou e o cravo proibiu-lhe que os beija-flores a beijasse. “Coisa de quem ama”, disse-lhe a mãe. “Os jovens são assim mesmo.” Rosa sorria, feliz. Sentia-se amada.
Noivaram-se.
Agora, nem os feiosos pulgões nem os fedorentos besouros podiam apreciar a beleza dela. Que apreciassem outra, não a rosa dele. “Coisa de quem ama”, pensou rosa. Ria, sentindo-se amada.
Casaram-se. Festa no jardim. Somente flores femininas podiam cumprimentá-la. Rosa não gostou. Reclamou. Não foi ouvida. Chorou em plena lua de mel. Começava a sentir-se sufocada.
Com o tempo, já não saía mais de casa sem o cravo. Apenas a mãe e as irmãs vinham visitá-las. Beija-flores? Nem de longe os via mais. E o cravo nunca mais deu-lhe uma dose de perfume por menor que fosse. Findaram-se os galanteios. Se um besouro passasse perto da janela de sua roseira para apreciá-la por um segundo que fosse, o cravo começava a acusar-lhe de traição.
A rosa perdia o perfume. O brilho. Murchava. Já nem tinha voz.
Um dia, ela ameaçou separar-se. Ele, de tanta raiva, arrancou-lhe uma pétala. Outra vez, tentou fugir. Outras pétalas lhe foram tiradas. Entendeu. Estava presa a um relacionamento tóxico, abusivo, destruidor. Mãe-rosa? Nem a via mais. E quando a via, era aquele silêncio.
Certo manhã, mãe-rosa foi ver a filha, o cravo deixasse ou não. Encontrou a rosa completamente murcha, com um espinho enfiado na garganta. O cravo, que tinha acabado de se banhar, disse à mãe-rosa que sua linda rosa tinha cometido suicídio.
As autoridades apuram o caso.

João Rodrigues (Reriutaba – CE)


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