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BOB DYLAN: TARÂNTULA

Por Elias Antunes                                  

O romance (um estranho e amorfo escrito) Tarântula, do músico, compositor, poeta e escritor Bob Dylan compõe-se de textos sequenciais, soltos, misturando prosa e poesia, prosa poética e poesia prosaica, lançando mão de uma pontuação fragmentária, expulsando as maiúsculas (depois elas voltam tímidas).

Bob Dylan é um dos nomes mais consagrados de nosso tempo, ganhador dos principais prêmios nas áreas da música (Grammy), do cinema (Oscar) e da literatura (Nobel), bem como uma menção no Pulitzer.

         Muitos dizem (há um vídeo circulando na Internet sobre isso) que o artista vendeu a alma para o diabo para conseguir essas façanhas.

         Os poemas de Tarântula que ilustram a prosa disforme, parecem cartas ou bilhetes, trazendo assinaturas falsas de personagens diversos, como se Dylan tivesse o alter ego fracionado em muitos.

         “Fiquei bebum demais noite passada. devo ter bebido

demais. acordei hoje de manhã com

a cabeça na liberdade & minha cabeça que parecia

a polpa de uma ameixa… estou planejando

discursar hoje sobre brutalidade

policial. venha se você conseguir escapar. (…)”

(DYLAN, 2017, pp. 30/31)

O livro é uma conexão de frases desconexas, um furacão de palavras, muitas utilizando de um humor diluído, mas, às vezes, forte. Tem-se a impressão que ele tenha cavado um pouco na mesma cisterna de Ezra Pound e de Samuel Beckett. Isso não significa que estará à altura destes grandes mestres da literatura.

 Tarântula é um livro, digamos, no qual Bob Dylan produz um descarrego da sua potência literária, como uma metralhadora giratória.

A leitura não é simples, mas se houver fôlego e paciência pode-se chegar ao fim, mesmo que seja como iniciou: com a impressão de que não leu uma história, mas um conjunto de frases em busca da coesão.

Ao contrário, os poemas que ilustram as passagens em prosa parecem apontar para uma maior coerência, mas não estabelecem parâmetro ou sinais para serem seguidos em busca de uma história.

Lembra, de certa forma, alguns contos escritos por outro astro da música que, dizem as más línguas, teria cometido dois homicídios, o John Lennon.

“…embora você possa

me entender mal, eu chegaria inclusive a

assinar um contrato com o demônio… (…)”

(DYLAN, 2017, p. 109)

Baseado nisso, ou melhor, em todo o texto fragmentário de Dylan, parece que sua vontade é a de levar desorientação ao leitor, com seus sinais “errados”, montando uma rede de mentiras.

Sua escrita automática, sua, às vezes, virulenta não narrativa, equivale a disparar sem alça de mira, não querer o alvo fácil, descontinuar a história.

Já em seguida a tanto desparelho, como muitos outros escritores, inclusive Beckett, Dylan escreve um epitáfio em forma de poesia:

“Aqui jaz bob dylan

assassinado

por trás

por trêmula carne (…)”

(DYLAN, 2017, pp. 117/118)

Assim deve-se terminar essa resenha, como um leitor duelista que feriu e saiu ferido. Levando-se em conta que um escritor precisa ser um fabulista e um mentiroso, Bob Dylan realiza essa escrita com bastante desenvoltura.

Fonte da imagem: Foto do autor.


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