Se Deus existe mesmo e é Ele quem manda nessa bodega toda, o Criador anda atravessando uma crise de criatividade.
Cada vez mais percebo coisas repetidas neste mundo. Não me refiro apenas aos atos manjadíssimos dos políticos, aos desmandos dos ditadores espalhados pelo planeta ou à mania que a humanidade tem de repetir guerras como quem repete na janta o prato do almoço por pura preguiça. A História, sabemos, vive de reprises.
Mas falo também da semelhança das pessoas.
Ando vendo pelas ruas indivíduos iguaizinhos a outros que conheço ou conheci: parentes, vizinhos, colegas de trabalho. De repente, no meio da calçada, aparece alguém que é a cara de um antigo amigo. Fico encarando, já abrindo um sorriso, pronto para soltar um “Há quanto tempo!”, mas quase sempre a expectativa acaba em decepção quando o sósia responde ao meu olhar insistente com um irritado:
— Qual foi, meu camarada, tá me encarando por quê?
Às vezes penso que os moldes lá do alto celestial devem ser poucos para a quantidade de gente que anda brotando por aqui. Chega uma hora em que o estoque de formas se esgota e o Criador acaba sendo obrigado a repetir modelos. Quem mandou dar livre arbítrio pra esse povo? Não foi Ele que ordenou: “Crescei e multiplicai-vos”? Pois, deu nisso.
Imagino que eu mesmo devo parecer com muita gente conhecida de outros. De vez em quando alguém me para na rua:
— Você é o Alberto?
— Zé, respondo, sem graça, com pena de decepcionar a pessoa que julgava estar diante de um amigo reencontrado.
Uma vez aconteceu algo ainda mais desconcertante. Uma mulher vinha na minha direção, sorrindo, de braços abertos, com aquela alegria de quem reencontra alguém muito querido. Por um instante pensei que o milagre da memória tivesse me pregado uma peça e que eu estivesse prestes a reconhecer alguma velha conhecida.
Mas não.
Só quando chegou bem perto ela percebeu que eu era apenas eu. Parou no meio do gesto, recolheu o abraço, engoliu o sorriso, desviou de mim e seguiu adiante, tentando disfarçar a vergonha — e talvez uma lágrima.
Desde então fico pensando que, às vezes, o problema não é a falta de criatividade de Deus. É a falta que certas pessoas fazem que nos leva a vê-las por aí, em todo canto. Acho que é só saudade.


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