Desde que me entendo por gente e bem antes até, se ouve falar dos temporais de verão no Rio de Janeiro e suas consequências. Tão características são essas chuvas, que viraram até música, como: Cidade Lagoa, ou Águas de Março. Em 2026, contudo, as enxurradas vieram acompanhadas, inclusive, de um clima de inverno fora de época, durante diversos dias desse período tradicionalmente calorento. Confesso ter achado prazeroso, pois não gosto de calor, e bom para as plantas. Reconheço, porém: tamanha chuvada traz inconvenientes e perigos.
Nossa cidade tem uma geografia peculiar, espremida entre mar e montanha. Sofreu muitas intervenções humanas que, nesses momentos, cobram seu preço. Tantas lagoas, charcos e trechos da costa aterrados, tantos rios com curso mudado e contidos em galerias… Quando o volume hídrico sobe, lembram-nos de sua existência, alagando tudo.
Recentemente, comentando ter molhado seu calçado nas poças que atingiam o tornozelo, uma conhecida lembrou de peripécias, num tempo anterior aos “piscinões” para minimizar as enchentes. Na ocasião, há vários anos, ela voltava da Tijuca para a Baixada Fluminense, num final de tarde, após um temporal. Como de costume, não havia ruas no seu caminho até o trem, mas, sim, rios e lagos. Ela tinha esperado a chuvarada passar, no entanto, de pouco lhe serviu. Por qualquer rota que seguisse, só havia água e correnteza, em grande parte, vindas das cheias do rio Maracanã e do Joana. O trânsito parou. Carros, ônibus e gente aguardavam, em locais menos arriscados, o baixar das águas. Isso, contudo, não acontecia. O tempo foi passando, a noite se insinuando. O desespero e a ansiedade por chegar em casa só cresciam.
Num ato de arrojo (ou seria loucura rematada?), nossa protagonista decidiu enfrentar a natureza. Ignorando os riscos de tétano, tifo, leptospirose, leishmaniose, bueiros abertos e correnteza, meteu-se no aguaceiro, que lhe chegava quase à cintura. Mas não foi totalmente temerária. Num instinto de autopreservação, viu em dois homens altos e fortes, também desafiando a torrente, uma tábua de salvação. E foi assim que, cercada pelos dois cavaleiros (sem armadura, cavalo branco ou bandeira), rompeu a barreira líquida e chegou à estação de trem, sã e salva.
Seu ato mereceu uma bela bronca da mãe, que a fez jurar nunca, nunquinha mais, tentar semelhante façanha. Hoje, mais velha e sensata, ela opta por vias menos perigosas, ou, simplesmente, espera. Seja como for, ao relembrar o passado, fala com um sorriso e uma ponta de orgulho de sua aventura de jovem, ao sabor das águas.


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