Há dias em que a cidade acorda com pressa demais
O ônibus cheio
A fila do pão dobrando a esquina
As portas de metal das lojas subindo com aquele barulho de cansaço antigo
Cada pessoa caminhando com uma história inteira guardada no peito
Histórias que passam umas pelas outras como quem atravessa uma estação de trem
Na esquina, uma senhora tenta equilibrar duas sacolas
O peso parece maior que o próprio corpo
Um rapaz que corre para o trabalho diminui o passo
Pega uma das sacolas
Caminham alguns metros juntos
Como se a rua inteira tivesse ficado um pouco mais larga para os dois
Ninguém anuncia o acontecimento
Nenhuma manchete registra
Mesmo assim, alguma coisa muda de lugar no ar
Mais adiante, um menino luta com o cadarço do tênis
Os dedos pequenos embaralham o fio
Um homem que passava agacha na calçada
Mostra o caminho do laço com a paciência de quem sabe que certas coisas da vida precisam ser ensinadas devagar
O menino ri quando dá certo
O homem segue andando com essa pequena vitória guardada no bolso da manhã
Há um tipo de conhecimento escondido nesses gestos
Uma sabedoria discreta que atravessa as pessoas sem pedir autorização
Talvez seja por isso que as cidades continuam respirando
Entre buzinas
Contas atrasadas
E dias que pesam mais do que deveriam
Alguém segura uma porta
Alguém oferece água
Alguém escuta uma história que precisava existir em voz alta
E assim o mundo continua andando
Amparado por pequenas delicadezas
Quase invisíveis
Como se cada coração reconhecesse de longe
O ritmo de outro coração tentando seguir caminho também.


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