Por Elias Antunes
Li, anteriormente, um livro de Czeslaw Milosz, chamado “Isto”, publicado pela editora da UnB, no qual já despontava sua poesia, trazendo muito da prosa, como a poesia de Drummond, todavia com toda a carga e densidade poética de um grande mestre.
Nascido na Lituânia, em 1911 e falecido em 2004, na Polônia, o polonês é a nacionalidade e o idioma de Milosz.
No livro “Para isso fui chamado”, uma antologia de sua extensa obra poética traz poemas intensos, nos quais pode-se perceber o trabalho com a filosofia, o diálogo com outros autores e m sentido de alerta, como a desvendar presságios ruins em tempos difíceis.
“JULGAMENTO
Tudo passado, tudo esquecido,
só fumaça na terra, nuvens soturnas,
e, sobre rios de cinzas, asas em
chamas e um sol envenenado se turva
e um fulgor de condenação reponta nos mares (…)”
(MILOSZ, 2023, p. 49)
Logo em seguida temos a voz autêntica do poeta, evocando o fazer poético, como se aparecesse por movimentos, com ritmo preenchido com a alegria da criação, sem deixar de ser algo propício à perda:
“UM POBRE POETA
O primeiro movimento é o canto,
A voz livre preenchendo montanhas e vales,
O primeiro movimento é a alegria,
Mas ela é tomada.
E quando os anos mudaram o sangue
E mil sistemas planetários nasceram e se extinguiram no corpo,
Eu me sento, poeta ardiloso e irado,
Com os olhos maldosamente cerrados,
E pesando a pena entre os dedos
Planejo vingança. (…)”
(MILOSZ, 2023, p. 61)
Milosz passou décadas construindo sua obra poética, mas ateve-se, principalmente, à soltura do poema, utilizando a terceira pessoa, emprestando a impessoalidade à sua lírica. Contudo, os poetas não conseguem essa fidelidade ao impessoal o tempo todo. Assim, muitas vezes fala em sua voz pessoal, como que encarando os dilemas de sua vivência.
“SÓ ISSO
O vale e, sobre ele, bosques nas cores do outono.
O peregrino chega, o mapa o trouxe,
Ou talvez a memória. Uma vez, há muito, no sol,
Quando caiu a primeira neve, seguindo por ali
Sentiu alegria dos olhos. Tudo era ritmo
Das árvores passando, do pássaro no voo, (…)”
(MILOSZ, 2023, p. 193)
Sua voz poética está cheia de nuances de sociologia e do que se convencionou chamar de sociobiografia e, mais ainda, de uma potência filosófica e questionadora.
Ler um poeta como Czeslaw Milosz, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 10980 é sempre um bom proveito e uma lição de poética, de um escritor original e engajado com o seu tempo.
Fonte da imagem: Foto do autor.


Deixe um comentário