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VAI QUE DEUS EXISTE MESMO?

Tenho ido com frequência a enterros nos últimos anos. Não por vocação mórbida, mas porque a vida, como se sabe, cumpre com pontualidade britânica e muita criatividade seu compromisso de pegar, todos os dias, alguns de nós, regularmente, e levar sei lá pra onde. A maioria dos que perdi seguiu a ordem natural das coisas: avós, pai, mãe, tios. A fila andou como manda o figurino. Alguns, no entanto, apressados ou distraídos, furaram a fila e foram, lamentavelmente, antes do combinado.

Enterro é um ritual curioso. A dor que carrego para o evento é verdadeira, mas as palavras que despejo sobre os compungidos sobreviventes nem sempre. Mesmo não acreditando em céu, inferno ou qualquer modalidade de vida pós-morte, dou-me conta de que repito, quase mecanicamente, as frases de praxe: “Descansou.” “Está em paz agora.” “Foi para os braços de Deus.” São fórmulas prontas, herdadas da tradição, que funcionam como senha social para atravessar aquele território delicado sem cometer nenhuma heresia emocional.

Não as digo por convicção, mas por educação. Elas equivalem ao “bom dia” que se pronuncia no elevador sem olhar muito para o destinatário. Pura etiqueta. Em momentos assim, a sinceridade pode ser um gesto de crueldade. Imagine se em vez da frase feita disséssemos para os familiares do defunto algo parecido com a verdade? Nem pensar; melhor mesmo é seguir o protocolo, dizer a fala decorada e buscar um canto para esperar a encomendação e o enterro propriamente dito.

A religião — qualquer uma — talvez tenha sido criada e sobreviva até hoje por causa do medo terrível que temos da morte. Da nossa e, sobretudo, dos que amamos. O desconhecido nos desorganiza. A ideia de parar de existir de uma hora para outra, causa revolta, preocupação e, sim, medo. Assim, por via das dúvidas, frequentam-se igrejas, templos e terreiros. Cultiva-se uma fé às vezes morna, às vezes protocolar. E, na hora derradeira, invoca-se uma devoção que nem sempre foi praticada com tanto empenho e honestidade em vida.

Cumprimos o ritual e consolamos uns aos outros com as palavras disponíveis no mercado da interação social através da linguagem. No fim das contas, talvez seja isso o que nos resta diante da morte: solidariedade com os que perderam um ente queridos e alívio por que não foi um dos nossos. Repetimos mecanicamente “Descansou e foi pro céu. Está agora nos braços do Pai” para a viúva, mas estamos, prudentemente dirigindo essa lenga-lenga para Ele, que pode estar nos ouvindo lá de cima. Quem sabe isso pode pesar na hora em que o Criador fizer a próxima lista de partidas. Vai que Deus existe mesmo?


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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