o ar gélido comprometeu a estrutura
das janelas mal vedadas do meu peito
rangeu a casa antiga da memória
como ossos cansados após fugir do medo
as tábuas estalaram feito neblina nas frestas
que nem neve na montanha
em meio o gelo que nos resta
foi então que ouvi o bater de asas,
lento mas sem cerimônia alguma
era o corvo pousando na janela bem debaixo da penumbra
ele caminhou de um lado para o outro
olhando casa a dentro
esperando alguém olhar de volta
e levantar o vidro para que ele voasse até o centro
o trinco cedeu num estalo seco,
e o vácuo gelado engoliu o meu grito
o corvo não voou pelo espaço oco
mas mergulhou no meu peito aflito
bicando e mordendo a carne cortada
ele agora habita a pele derramada
no meu próprio vazio que ele fez ninho
e devorou a vida que restava


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