Havia um jardim aberto ao sol da manhã,
onde o vento não ouvia proibição alguma sã;
tudo crescia sem freio, sem poda, sem direção,
confundindo liberdade com falta de contenção.
O pequeno broto erguia-se leve, amparado demais,
cada queda era evitada por mãos sempre iguais;
se o espinho ameaçava ferir-lhe a ilusão,
logo o chão se tornava macio sob sua plantação.
Nunca soube onde termina o desejo e o dever,
pois não houve cerca alguma a lhe dizer como crescer;
toda curva era suavizada, todo erro, corrigido,
como se o mundo inteiro fosse um quintal protegido.
Veio o tempo das folhas largas, da pressa em alcançar o céu,
mas faltou-lhe a resistência que fortalece o papel;
não aprendera que o vento também ensina a ficar,
nem que o “não” é raiz funda que sustenta o caminhar.
Cresceu árvore vistosa, de sombra ampla no chão,
mas trazia fibras frágeis sob a casca da razão;
estranhava os limites como ofensa pessoal,
acostumado ao cuidado constante e paternal.
Quando adulto, diante do campo que não cede lugar,
sentiu o peso das escolhas que não soube ensaiar;
pois amor que tudo evita, que antecipa cada dor,
pode, em zelo exagerado, atrasar o próprio vigor.
E o jardim compreendeu (tarde, mas com clareza)…
Que podar também é gesto profundo de beleza.
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