Não vou negar: eu penso nela, sim, às vezes. Nas horas mais estranhas: ao acordar, no banho, durante uma reunião, naquele exato momento em que a porta do metrô se abre, pra eu entrar ou sair. Não há hora certa, mas quando acontece, após o arrepio que atravessa o corpo, sou imediatamente levado a rever planos, a revisar os passos que já defini até que a indesejável das gentes chegue, inexoravelmente.
Tenho coisas anotadas, providências a serem tomadas na minha falta, súbita ou anunciada. Senhas das redes sociais e o que fazer com elas; login em banco, emails, datas de pagamentos, tudo: não quero deixar os que ficam atarantados com a minha ausência, pensando no que fazer, como fazer, todo o mundo correndo com o balde sem saber onde é o incêndio.
Não há nada de mórbido nisso, não me recrimine. Tornei-me, de uns tempos para cá, mais organizado, racional e pé no chão e, isso, ser pé no chão, significa ter a consciência de que, já, já, voltamos pra ele. Sei que partirei, como todos irão, e não posso me dar ao luxo de deixar problemas que possam apagar, pelo menos momentaneamente, as boas lembranças que pretendo deixar. É tudo pensado e tem a ver com a enorme necessidade de agradar as pessoas que trago gravada no cérebro desde criança.
Não deixarei instruções para o velório, porque aí já é, até para mim, demais! Conto com a criatividade dos presentes. Quem sabe onze amigos, como no Brás Cubas, um que diga algumas palavras de saudade, e aquela chuva fina que Machado joga sobre a cena se façam presentes. Se forem cinco ou seis, já me dou por satisfeito: não estarei presente para fazer a chamada, mesmo…
Essa ideia, que pode parecer a você mórbida, lúgubre, surgiu durante a audição de uma música do Gil, “Não tenho medo da morte”, em que ele canta sem acompanhamento de instrumento harmônico. Enquanto canta/diz a letra, marca o ritmo batendo com o polegar no tampo do violão, como um coração pulsando. O trecho que me levou a me organizar para a viagem ao fim foi este: “ A morte já é depois / Já não haverá ninguém / Como eu aqui agora / Pensando sobre o além /
Já não haverá o além / O além já será então…”
A gente não sabe de onde vem, por que vem, por que aqui, por que com esses e não com aqueles, por que dessa maneira (homem, mulher, preto ou branco, brasileiro ou escandinavo, rico ou pobre) e não de outra. Cientistas e, na falta desses, religiosos, criam explicações sobre o porvir e a origem da vida na Terra, mas, na dúvida, garanto eu o que me pertence. Não pude, como ninguém pode, organizar-me para chegada, pretendo me organizar ao menos para a partida. Somos trazidos para este mundo à revelia de nossa vontade e ficamos nele até que chegue a nossa hora, decidida também aleatoriamente. O livre arbítrio implica, acho, pelo menos preparar-se para o pior, para que não seja tão ruim para os que ficam, porque, como o antigo compositor baiano diz, “A morte é depois de mim / Mas quem vai morrer sou eu”. Até breve.


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