Ela se movia pela rua, no final da manhã da quarta-feira de cinzas, com total falta de ânimo. Sentia-se exausta. Não que se tivesse esbaldado na folia. Com sua pouca disponibilidade diária, aquele intervalo serviu para arrumar a casa, fazer a comida da semana, consertar roupas, cuidar das plantas, ordenar as contas, às vezes, ao som dos sambas enredo, na tevê que não conseguia parar para ver. O feriadão ficou curto e deixou um gosto de tarefas inacabadas ao lado do cansaço. Bem que eu teria aproveitado melhor esta tarde. No mínimo, daria cabo de algumas pendências. Com sorte, porém, se permitiria um descanso. Isso, contudo, não era uma opção. O trabalho a chamava. Feriado só até às doze horas, dizia, categórico, o chefe.
Nas calçadas, desviava dos restos carnavalescos: pedaços de sanduíches e frutas, embalagens plásticas, garrafas e latinhas vazias. Antes fossem confetes coloridos e serpentinas, alegrando o ambiente! Nem podia culpar os garis. Eles tinham trabalhado dobrado, limpando a Sapucaí, as avenidas e praias, depois da passagem de blocos e escolas.
Ainda num ritmo lento, como se estivessem, finalmente, acordando depois de uma longa noite e iniciando o ano, gentes e carros ocupavam as vias públicas e retomavam o cotidiano. Nenhum glamour. Sem festa, sem canto, sem dança. Como um eco do entorno, nossa protagonista se arrastava para o emprego.
Tais eram os pensamentos ocupando sua mente, ansiosa por se distrair da realidade, quando algo lhe chamou a atenção. Pendurada numa quina de banco de praça, reluzindo sob o sol escaldante de fevereiro, jazia uma máscara dourada. Era bonita, cheia de detalhes e estava tão limpa, brilhante, sem nenhum amassadinho, que causou espanto. Quem a abandonaria assim, sem mais nem menos?
Inevitável tecer conjecturas. Tudo no objeto fomentava histórias possíveis. A garota apaixonada que teria revelado seu rosto ao amado, e, correspondida, após um longo beijo, partiu com ele, esquecendo-a ali. Ou a foliã, sem fôlego de tanto brincar, se sentando no banco da praça, despindo a peça de fantasia para enxugar o suor, mas a largando pendurada, a fim de acompanhar um bloco surgido do nada.
Não haveria, claro, apenas narrativas alegres. A máscara poderia ter presenciado o rompimento de um romance de carnaval, tendo sido abandonada tal qual o infeliz parceiro da dona. Ou, quem sabe, ficou enganchada no banco quando sua usuária fugiu de um arrastão.
Mais cedo ou mais tarde, alguém recolheria o adereço. Fosse para guardá-lo e usá-lo no próximo ano, fosse para mandá-lo à reciclagem. A jovem trabalhadora tinha pressa e não podia parar por motivo tão tolo. Esperava, no entanto, que seu final não fosse melancólico e a máscara pudesse brilhar novamente em 2027. Em todo o caso, sua presença solitária naquele lugar marcava um fim… e um recomeço.


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