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verdadeira Essência – Conto de Nick Pastorini

Desde criança, uma explicação rasa nunca bastou para mim. A minha curiosidade sempre foi atiçada pela menor das dúvidas. “Como que a chuva cai do céu?”, “Como que um bebê nasce?” ou “Por que o céu é azul?” Os meus pais sempre fizeram o melhor para sanar todos os meus questionamentos.
Até que um dia, uma mulher com cabelos já embranquecidos pelo tempo, entrou na minha sala de aula e colocou as seguintes perguntas no quadro:


“Quem eu sou? e “Quem eu quero ser no futuro?”.


-Bom dia! Meu nome é Ximena e serei a orientadora de vocês durante a nova etapa do ensino médio. – Anunciou Ximena depois de escrever as questões.
Será que o colégio sabia o significado desse nome quando a contratou para essa função? Ele é um nome de origem espanhola que significa “ouvinte” ou “filha daquele que ouve”. É uma coincidência engraçada a mulher ser alguém que ouve e auxilia os alunos.
Sei disso por causa da minha avó, pois ela tinha o mesmo nome e quando perguntei :


“Por que seu nome é tão diferente dos outros?”


A anciã contou o seu significado e explicou que seus pais acreditavam firmemente que o nome influenciava na personalidade das pessoas. Meus bisavôs
consideravam a comunicação clara e a paciência como algo essencial para a vida.
Por causa dessa crença, minha avó convenceu meus pais a inserirem “Luca” no meu nome porque significa “portador da luz”. Ela queria que esse fosse meu primeiro nome, mas minha mãe não abriu mão de me registrar como Charlie. Dessa forma, surgiu o nome composto: Charlie Luca.
Olhando ao redor percebi diversas reações vindas de meus colegas. Um grupo de meninas revirou os olhos ao lerem as perguntas.

– Isso não é óbvio? Sou herdeira de um dos negócios de moda mais famosos da região. Por isso, serei a estilista mais famosa do país. Meus pais vão ficar orgulhosos. – Sussurrou uma das integrantes do grupo.
Alguns meninos estúpidos que sentavam perto de mim deram risadinhas e falaram ofensas etaristas e machistas sobre a orientadora que preferi não relatar aqui. Infelizmente, meu pronunciamento, não mudará a mente vazia desses seres.

Antigamente, eu acreditava que conseguiria conscientizar alguém com argumentos, porém aprendi que, em certos momentos, é melhor me segurar para não gerar maiores estresse sem resultado algum. Sempre admirei quem possuía forças para lutar abertamente pelos direitos sociais. Meu desejo era adquirir tal resiliência para lidar com as consequências negativas de se manifestar.

– Peço que vocês respondam essa pergunta até o mês que vem. Aproveitando a dúvida de Charlotte, não é algo tão simples assim. Quero saber quem vocês são e querem ser quando estão sozinhos independentemente de profissão, heranças, círculo social, idade ou gênero. – Rebateu a funcionária de uma forma educada após escutar os
comentários.
Durante o restante do dia, a atividade passada no início da manhã ocupou a minha mente. Após fazer todas as tarefas diárias, faltando uma hora até o jantar, me sentei em frente a uma folha de papel em branco e comecei a refletir. As primeiras palavras que brotam no papel são informações simples como:


“Eu sou o Charlie Luca, tenho quinze anos, adoro a natureza e os animais, no futuro quero passar na faculdade de Medicina Veterinária.”


Porém, não me sentindo satisfeito com o que está escrito, passo a borracha na folha. O que me faz ser quem eu sou? O que quero ser no futuro? Essas duas frases interrogativas ecoam na minha mente até sentir uma mão no meu ombro. A sensação percorre meu corpo como um choque liberando adrenalina devido ao toque repentino.
-Filho, está tudo bem? Chamei você várias vezes e não recebi resposta. – Questionou minha mãe com sobrancelhas franzidas de preocupação ao ver meu susto.

Sim, só estava focado em uma atividade da escola. Já estou indo jantar. – Tranquilizei a mulher que me criou.

Naquele dia, a comida servida era macarrão com legumes, um dos pratos favoritos, então coloquei uma generosa porção no meu prato. Já faz mais de um ano que me tornei vegetariano. Normalmente, seria uma característica que eu citaria quando alguém perguntasse quem eu sou, mas esse caso é uma exceção. Seria muito raso escrever:


“ Sou vegetariano.”

-Aconteceu alguma coisa, Char? – Perguntou meu pai ao perceber a minha comida quase intocada no prato.

-Pai…Mãe… Quem eu sou? – Libertei as palavras, que estavam em minha mente para o mundo, de forma sussurrada.
Pelas suas expressões surpresas percebi que, certamente, não disse o que eles esperavam. Meu pai soltou uma risada.

-Entendi o que está acontecendo. É normal começar a questionar isso na sua idade e não saber a resposta ainda. Não se pressione, filhote. – Tranquilizou meu pai ao bagunçar minha franja escura como ele fazia quando eu era criança.

-Lembre-se que você é o Charlie Luca, nosso amado filho, independentemente de qualquer coisa. Agora, coma seu macarrão antes que esfrie. – Disse a minha mãe apertando minha mão negra com sua mão branca.
Pela primeira vez, desde que eu nasci, minha família não conseguiu sanar as minhas dúvidas. Sempre vi meus responsáveis como minha maior referência, então isso provocou um sentimento estranho e difícil de explicar. Esse foi o momento em que notamos nossos pais também não possuem todas as respostas. Apesar disso, abri um sorriso para não causar preocupação e como o macarrão de legumes morno.
Após o término do jantar, fiz minha higiene noturna e rabisquei mais algumas palavras na folha da atividade, mas é infrutífero já que apaguei o grafite assim que escrevia. Esse processo aconteceu várias vezes conforme os dias passam. Escreve. Apaga. Escreve. Apaga. Escreve e apaga novamente até o papel ficar marcado e amassado. Talvez, isso seja a resposta correta já que eu era e seria uma mera folha que
se apagou tantas vezes para tentar ter um lugar na sociedade e ficou marcada com diversos traumas ao longo de sua vida por se anular.

Quando pesquisei sobre esse modelo de atividade escolar na internet, só encontrei textos sobre orientação vocacional para escolher a carreira de trabalho ou mais questionamentos. Na maioria das vezes, a escola só quer saber que curso universitário você fará no futuro. Assim, gerando uma grande pressão nos alunos do ensino médio que ainda não decidiram. Vários adolescentes são resumidos pela profissão almejada. Se pretende ser artista, é visto como um fracassado esquisito, se pretende ser médico é visto como um prodígio perfeito e assim por diante…
O jovem está tão acostumado a ser julgado pelo seu futuro profissional que esquece é mais que isso e essas suposições são somente baseadas em estereótipos. Apesar de estar ciente disso, meu coração ainda não conseguia se libertar totalmente dessa visão, assim dificultando que as respostas surgissem.
Quando faltavam duas semanas para o prazo limite de entrega, desisti de tentar encontrar a resposta sem auxílio. Fiquei em frente a uma porta de madeira clara com uma placa em que estava escrito:


“Sala da orientadora Ximena. Respire fundo e sinta-se confortável para entrar.”

– Prazer Charlie Luca, eu fico feliz com a sua presença. – cumprimentou a mulher alta quando adentrei a sala após seguir as orientações da placa.
Sentei em uma das cadeiras do cômodo e fiquei alguns segundos em silêncio até criar coragem para conversar sobre o assunto. A orientadora aguardou, pacientemente, as minhas palavras e não me pressionou para comunicar o motivo da visita.

-Senhora, eu passei duas semanas inteiras tentando realizar a atividade passada, mas não consegui. Preciso de ajuda. – Revelei um pouco envergonhado.

-Entendo… não é uma tarefa fácil de ser realizada, pode demorar várias décadas para encontrar a resposta. Uma dica é pensar nos pequenos momentos, eles nos revelam mais do que imaginamos. – Aconselhou a Ximena ao notar a minha insegurança.
Nessa hora, o intervalo terminou, então agradeci e me dirigi à sala de aula. Não houve muito tempo disponível para refletir sobre o conselho recebido por causa de uma prova de química que ocorreu nos últimos períodos e pela faxina mensal na minha casa.

Após um longo dia, acabei caindo no sono assim que deitei na cama. Entretanto, me vi parado em um caminho de chão batido e com várias árvores ao redor. Piados baixos foram captados pelos meus ouvidos ao me aproximar enxerguei um pequeno emaranhado de penas e sangue. O pequeno pássaro parecia ter quebrado suas asas.
Eu poderia ter ignorado a situação e seguido o meu caminho, mas alguma conexão foi criada quando os olhos da ave se encontraram como os meus e soube que precisava ajudá-la. Por isso, voltei para casa com a minha camiseta azul marinha rasgada e com um pequeno pássaro enrolado nos pedaços de tecido em minhas mãos.

-Mamãe…Papai! Olha o que eu achei no meio do caminho. Não consegui deixar ele sofrendo sozinho. – Expliquei à minha família ao ser questionado.
Meus pais e eu tentamos cuidar do pássaro, mas quando acordei no dia seguinte e fui até o ninho improvisado da ave percebi que ela estava quieta e imóvel. Mãos quentes me envolveram. Nesse momento, notei que lágrimas escorriam pela minha face. Provavelmente, alguém na casa escutou o meu choro.

-Amor, Penny não resistiu. – Sussurrou meu pai enquanto me confortava.
Penny era o nome que eu tinha escolhido para o pássaro no dia anterior. O mesmo nome estava gravado no pequeno túmulo que foi cavado no quintal.
Acordei sobressaltado. Demorei alguns segundos para entender que estava sonhando. A experiência foi tão vivida que parecia ser real. O celular me informou que eram quatro horas da manhã. Após ajustar minha posição e me revirar várias vezes na cama, notei que não conseguiria dormir sem conferir algo.
Em seguida, andei na ponta dos pés até a porta dos fundos. Naquele momento, torci para que as dobradiças não fizessem barulho quando abertas e me encaminhei para o lado de fora.
O local onde seria o túmulo de Penny não possuia nenhuma indicação fora do sonho. Talvez não tenha sido real… Porém, minhas mãos contrariam a consciência e começaram a escavar o chão.
Infelizmente, não encontrei nada além de terra e minhocas. “Provavelmente, foi só uma fantasia noturna.” pensei ao me deitar na cama novamente. Entretanto, o mesmo sonho continuou se repetindo com frequência conforme se aproximava a data limite de entrega do trabalho.
Após várias noites em que acordava durante a madrugada, decidi procurar novamente. Talvez isso aquietasse a minha mente… Portanto, ali estava eu revirando o solo e o cavando outra vez. Daquela vez, eu não parei quando encontrei uma parte de terra com maior rigidez.
Estava quase desistindo quando pequenos ossos são descobertos. Isso foi possível depois de minhas unhas ficarem cheias de terra e um pouco de sangue devido a
escavação sem ferramentas adequadas. Penny realmente existiu, não era só fruto da minha imaginação.

Naquela hora, as palavras fluíram assim que coloquei o pé dentro de casa, então apressadamente fui até a folha registrá-las para não correr o risco de perder a inspiração. Quando terminei de escrever percebi que já estava amanhecendo. Apesar das poucas horas de descanso, estava com mais energia do que normalmente. Ao acordarem meus
pais me encontraram passando café preto e de uniforme.

-Não consigo acreditar! Charlie levantou antes de nós. – Exclamaram os dois adultos surpresos.

-Aqui está o café. Acordei com mais ânimo hoje, então resolvi adiantar algumas coisas. Assim, conseguimos comer com calma – Expliquei aos meus pais.
Dessa forma, nos juntamos à mesa e conversamos tranquilamente como não acontecia havia muito tempo por causa da correria do dia a dia.
Eu entreguei a minha atividade no intervalo, Xinema não estava na sala, mas a porta estava entreaberta. Deixei o seguinte bilhete, além da minha resposta:


“Senhora, tome cuidado com a porta. Lembre-se sempre de fechá-la. Nunca se
sabe o que pode acontecer. Eu sou muito grato pela sua proposta, me ajudou a lembrar
motivações que haviam sido esquecidas dentro de mim.”


Encostei a porta e saí enquanto deixava uma parte de quem eu era em cima da mesa:

“Eu sou menor e mais insignificante que um grão de areia na imensidão do universo, mas recebi um nome apesar disso. Escolhi honrar a oportunidade de existência
que me foi concedida mesmo sem ter consciência do porquê vim à esta terra. Estou em constante transformação, moldando e descobrindo quem eu sou como todos os seres
humanos, porém tenho certeza de um dos meus objetivos:
Quero ser fiel a minha verdadeira essência. Aquela mesma que se manifestou pela primeira vez, quando encontrei um pássaro ferido no caminho entre a escola e a
casa. Aquela que se sensibilizou ao enxergar uma criatura menor ferida e indefesa. Aquela pessoa que a levou para própria casa, tentou auxiliar o ser da melhor forma conhecida e pranteou quando não conseguiu salvar a criatura. Aquela mesma que sempre sentiu uma ligação inexplicável com a fauna. Aquela que resolveu virar vegetariana como forma de protesto e estudar para que, na próxima vez, possa oferecer
o tratamento correto aos animais fragilizados.”


Ximena sorriu de satisfação ao final da atividade Esses pequenos momentos são os que fazem a sua escolha de profissão ser a correta. É gratificante perceber que contribuiu na formação de algum aluno. Mesmo que vários a menosprezem, mas se conseguir auxiliar pelo menos um vale a pena.
Futuramente, a mulher estará lendo notícias online e certa entrevista chamará sua atenção. Um médico veterinário está relatando sua trajetória até descobrir como
curar a Raiva.


“Como todo o adolescente estive perdido nessa fase. Não é fácil lidar com toda a pressão colocada sobre nós ao entrarmos no ensino médio. Porém, uma pessoa me ajudou. Era uma orientadora da escola, se chamava Ximena. Se você estiver lendo isso eu tenho uma mensagem: continuo sendo fiel a minha verdadeira essência, graças a você.”

Instagram do autor: @nick_sketchbook_


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