“O que você quer ser quando crescer?”
Qual criança nunca ouviu isso?
Talvez algumas que nem sabem se um dia vão crescer.
Mas é quase que de praxe.
Davi também ouvia.
Ouvia na escola,
na casa dos parentes,
nos encontros de adultos que falavam alto demais.
A pergunta vinha sempre acompanhada de sorriso,
como se fosse carinho,
mas carregava um peso que ninguém percebia.
Porque não perguntavam quem ele era.
Perguntavam quem ele viraria.
Davi tentava responder direito.
Dizia médico, porque salvava vidas.
Dizia advogado, porque usava terno.
Às vezes professor, mesmo ouvindo que ganhava pouco
e parecia viver de amor.
Cada resposta parecia errada rápido demais.
Era como se crescer fosse escolher uma coisa só
e abandonar todo o resto.
Enquanto os adultos falavam de futuro,
Davi pensava no agora.
No recreio.
Na bola perdida no telhado.
No desenho inacabado dentro da mochila.
Um dia, cansado da pergunta,
ele respondeu diferente.
“Eu já sou quem eu quero ser, tia.
Eu sou Davi.”
Sou psicólogo, formado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e atualmente mestrando em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da UEFS, vinculado à Linha 3 Culturas, diversidade e linguagens. Minha caminhada profissional e acadêmica é atravessada, de forma muito viva, pelo encontro com as infâncias. É no brincar, na ludicidade e no cuidado atento ao desenvolvimento socioemocional que reconheço um território fértil de escuta, criação e produção de saúde mental.
Durante dois anos, tive a alegria de atuar como bolsista de extensão na Brinquedoteca da UEFS, um espaço que me ensinou, cotidianamente e com as crianças, que brincar é linguagem, é vínculo, é gesto de cuidado e possibilidade de mundo. Ali, aprendi que escutar uma criança também passa por acolher seus silêncios, seus movimentos, suas invenções e afetos.
A escrita poética me acompanha desde a infância como um lugar íntimo de expressão e de cuidado comigo mesmo, um modo sensível de existir e elaborar o vivido. Ao conhecer a proposta da Revista Entre Poetas & Poesias, fui tomado por um encantamento imediato. Reconheci, em seu cuidado editorial, em sua abertura à pluralidade de vozes e em seu compromisso sensível com a leitura, um espaço que dialoga profundamente com aquilo que acredito, estudo e sinto.
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