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VALOR SENTIMENTAL

– Essa é mais cara por causa do valor sentimental.

Foi o que a mulher me disse quando eu questionei o preço da que eu queria. Eu estava numa feira de móveis e objetos antigos e, até ver a poltrona com forro de  veludo, nada tinha me interessado. Perguntei que histórias ela guardava com a tal poltrona. Eu já estava pronto pra ouvi-la por horas, mas ela quebrou o clima cinicamente:

– Nenhuma! Mas a mulher que me vendeu contou que a poltrona pertencia à avó dela, de quem ela gostava muito e que a velhinha adorava sentar nela pra ver a novela das oito, apoiando os pesinhos num pufe também de veludo. Que eu já vendi.

Era um caso inusitado de valor sentimental alheio. Agradeci e segui perambulando pelos restos de salas de jantar, partes de quartos de casal, mesas, cadeiras, sofás e, até uma penteadeira incrivelmente bem conservada. Os móveis, órfãos das decorações de que faziam parte, me faziam pensar em como eram grandes os lares de antigamente. Nenhum desses monstrengos cabe no meu apartamento de 60 metros quadrados. A tal poltrona, aliás, não caberia, mas a impressão que me causou foi que me levou a pelo menos perguntar o preço dela.

Tudo ali devia ter enorme valor sentimental, porque nada era útil ou prático. Quem precisa mesmo daquele abajur esganiçadamente rosa? Pra que serve um curvado chapeleiro de mogno legítimo com mais de cento e cinquenta anos de idade? Onde enfiar uma presunçosa papeleira de catorze gavetas com puxadores de bronze? O que fazer com a anti-higiênica escarradeira de louça do século XIX?

Eu estava passando pelo local e resolvi olhar os objetos expostos não para comprá-los, porque me faltam grana e espaço, mas a fim da flagrar neles pedaços de histórias que é, de resto, pelo que me interesso. Quem sabe não foi naquela cama enorme que tórridos amantes foram pegos em flagrante pelo marido traído? Será que nessa escrivaninha uma diáfana donzela escrevia inúteis cartas de amor a um desinteressado cavalheiro?  Que segredos guarda em sua mudez servil a pequena mesinha que ficava ao lado da cama nos lares do Brasil Colônia?

Segui o périplo pela exposição. Nada mais me interessou tanto quando a poltrona de veludo, que veio comigo, em pensamento, pra casa. Fiquei pensando onde a colocaria, na minha sala minúscula, dominada pela smart tv, esparramada na parede frontal ao sofazinho que vira cama. Talvez devesse enfim, atendendo aos inúmeros pedidos das visitantes, desmontar a envergonhada estante “que só acumula poeira”, mas que protege, maternal, os meus livros, quase tão velhos e deslocados quanto ela.

Fiz bem em não trazer a poltrona. Não há lugar para ela neste mundo apressado em que leio em pé, no metrô ou no trem, quando vou pro trabalho, ou deitado, nos minutos que me restam de vivacidade antes de cair no sono. Em que ouço o jornal no phone de ouvido enquanto caminho pra perder alguns gramas e ganhar uns meses de vida. Em que aproveito a espera no consultório pra responder com mensagens burocráticas a familiares e amigos as mensagens que mofam impacientes há dias no telefone.

A poltrona de veludo não tem mais lugar neste mundo. Assim como a velhinha, que via televisão nela com os pesinhos sobre o pufe. A sorte dos seres humanos é que um dia, a gente acaba e se desfaz. Já as coisas, ficam por aí, penando sem dono e sem utilidade porque, para alguém, elas têm algum valor sentimental, lembram as pessoas queridas a quem serviam. Até que um dia, após muita resistência, uma filha, o marido, a companheira, a vida, alguém dirá com todas as letras:

– Vende isso ou joga fora!

E o estorvo será descartado e vai parar numa feira de antiguidades, onde só terá mesmo, ainda que alheio, o valor sentimental.


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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