Há um vazio que mora atrás do peito,
Não grita alto, mas corrói em silêncio,
É um abismo manso, calmo, imperfeito,
Que cresce à sombra do próprio pensamento.
Não tem forma, não tem rosto ou idade,
Não sangra, mas insiste em doer,
É feito da soma da lucidez
Com a fadiga infinita de existir e ser.
Existir é andar sem mapa ou promessa,
É vestir o tempo como ferida aberta,
É fingir que a rotina nos atravessa
Sem cobrar da alma a conta mais certa.
Acordar é repetir um gesto antigo,
Respirar por instinto, não por vontade,
É carregar o corpo como castigo
Enquanto a mente questiona a finalidade.
Quem sou eu quando ninguém me vê?
Quando o nome some e o eco se apaga?
Sou só matéria tentando entender
Por que a vida insiste e nunca explica nada.
O vazio observa com olhos fundos,
Paciente, esperando o tropeço final,
Ele não destrói de modos profundos,
Apenas sussurra: “Nada faz sentido, afinal.”
E a existência responde com ironia fria:
“Mesmo assim, levante e caminhe”,
Pois viver não é feito de poesia,
Mas de passos forçados que o tempo imprime.
Somos instantes fingindo eternidade,
Fragmentos soltos buscando razão,
Chamamos de sonho a necessidade
De dar nome à nossa confusão.
O vazio não é ausência, é excesso,
É pensar demais no que nunca vem,
É perceber que o amor, quando disperso,
Não preenche tudo (só distrai também).
Existir é negociar com o nada,
É assinar contratos com o incerto,
É sorrir mesmo com a alma cansada
E chamar de esperança o que é deserto.
Há dias em que o ser pesa nos ombros,
Como um casaco molhado de chuva antiga,
E o futuro parece feito de escombros
Enquanto o passado insiste e castiga.
Porém ainda assim, algo pulsa, resiste,
Mesmo frágil, quebrado, sem direção,
Talvez viver seja isso que persiste
Quando o vazio não vence a contradição.
Não há resposta no fim do poema,
Nem luz absoluta no verso final,
Só a verdade crua que nos permeia:
Existir dói… e o vazio é real.
Mas entre o nada e o próximo passo,
Entre o silêncio e o que ainda não foi,
Seguimos (não por sentido ou espaço)
Mas porque o ser, mesmo cansado, é quem dói.
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