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Você já leu Balzac?

— Carlos, você já leu Balzac?

— Quem?

Júlia soltou um longo suspiro, movendo os ombros duros para cima e depois decididamente para baixo, deixando sair um pesado soco de ar pela boca. Ela passou a mão pelo próprio pescoço à mostra. A nuca parecia tensa pelos músculos da cervical saltada. Ela tinha os cabelos espontaneamente enrolados em coque, com uma presilha em forma de lança cravada bem no meio.

Era um bolo mole de fiapos suspensos, como um coração partido. Em seguida, Júlia se virou para o pobre que a olhava com olhos desgrenhados. Eles tinham uma expressão boquiaberta de samambaia de plástico, como se perguntassem: O que você quer? Ela, a própria mulher de trinta anos, estava num impasse: discutir a relação ou sair sem dar explicações. Estava cansada de ter que falar tudo: da toalha molhada em cima da cama até o ponto em que se deve tocar numa mulher. Os homens têm essa espécie de descompasso: ou são muito lentos ou apressados demais, pensou enquanto se levantava rumo ao quintal.

Carlos se deixou ficar deitado na cama, sem saber o que fazer ou dizer. Tinha medo de que qualquer coisa que dissesse pudesse piorar a situação. Então, na dúvida, resolveu ficar calado, o que definitivamente enfurecia ainda mais Júlia, que nesse ponto caminhava pela cozinha até o quintal. Na verdade, esse episódio patético do Balzac foi só a gota d’água para transbordar um oceano de não-ditos que já se acumulavam há meses.

No quintal, acabava de chover uma chuva forte e decidida. O cheiro de terra molhada acalmou Júlia, que se enroscou numa das pilastras do canteiro para contemplar a noite. O chão de concreto batido estava agora úmido e inteiramente transformado pela águas de fevereiro. As poças espalhavam os seus tentáculos verde-musgo pela superfície artificial com milhares de microgotículas dançando pelas frestas misteriosas que a penumbra desenhava.

No muro, as plantinhas suculentas, que ornamentavam os vasinhos durante o dia, levantavam pontudas orelhas mostrando os espinhos de um braço que abraçava o ar. Suas folhas carregavam pequenas flores brancas, enrodilhadas em botão, como pequenos cérebros apodrecidos.

Júlia tinha tantas questões quanto desejos: seria mãe? Faria uma viagem para o exterior? Mudaria para outro estado? Tinha sonhos e terrores que não compartilhava com ninguém: acaso Carlos notara uma pequena ruga que nasceu na semana passada ou o procedimento que acabou por fazer? O seu corpo ainda aguentaria uma gestação… quer uma? Ficaria sozinha com os seus gatos (o que não soava tão ruim) ou um marido para chamar de seu, assim como uma coisa preciosa? Focaria na carreira de cientista e aceitaria a bolsa de residência na Flórida?

Isso tudo ardia na mente da jovem mulher que não sabia o que fazer. Ela se sentia perdida. Deduziu que a causa de tanta inquietação eram os 30 anos em que é tudo ou nada, ou pelo menos é a idade em que alguns caminhos devem ser escolhidos. É o que dizem. Quando jovem, tinha todo um script do que deveria fazer na vida — que já rasgou faz tempo. Agora o futuro estava tão turvo quanto a poça de água que se formava na calha.

Quando Júlia conheceu Carlos, ela estava com 26 anos. Não foi amor à primeira vista, como nos filmes. Ele teve que batalhar muito até conseguir conquistar a moça. Ela, de alguma forma, se sentia aliviada por isso. Queria um amor promissor e atento e, sobretudo, tranquilo. Com o tempo, percebeu que poderia se deixar confiar: havia cumplicidade nos detalhes, intimidade, uma ideia forte de futuro juntos. E foi assim, de fato, até começarem a aparecer os problemas.

Júlia apertou os olhos para ver uma pequena aranha que se empenhava em atravessar a fina linha que conectava as duas pilastras frontais, que ela mesma havia feito. A pequena se esgueirou pelo beiral da treliça passando pelas gotas, sem pestanejar. Absorta em si, Júlia lembrou do primeiro defeito. Parecia pequeno na época.

Foram juntos a uma festa de natal. Era na casa de uma amiga de infância de Carlos. Tudo corria bem. Júlia tomava conhecimento dos amigos, das preferências das músicas, trocava amenidades, enfim a coisa toda que acontece quando você é “apresentada” num meio social como namorada. De repente, Júlia notou que Carlos olhava com olhos fixos para a amiga. Ela sabia que eles não tinham tido nenhuma relação para além da amizade, então a situação era ainda mais confusa e delicada. Ele se demorava num olhar intenso, que fez Júlia arregalar os próprios olhos num misto de espanto e raiva. Mesmo com a presença de Júlia no ambiente, Carlos não desviava os olhos das pernas da amiga, que, por um acaso, estavam descobertas.

A amiga, sem graça, puxava o tecido da roupa para baixo e para cima tentando se esconder de um olhar que a vestia, num mesmo movimento inconsciente de se cobrir que todas as mulheres conhecem. Júlia, que passava por eles, notou o cenário desconfortável e mal pôde acreditar no que via. Lembrou-se dos seus próprios momentos em que se deparou com esses exatos olhos gulosos que arrancam pedaços: no ônibus, no mercado, na padaria. Qualquer lugar poderia se tornar de repente aquele inferno, especialmente quando se é menina ou adolescente. Os olhos sedentos não conhecem limites numa sociedade que sexualiza o corpo feminino.

Hoje em dia, Júlia tira de letra esse problema: devolve o constrangimento no olhar. Em geral, quando ela olha de volta fixamente com petulância e rigidez, parece que a ação medonha “perde a graça” e os olhos bizarros logo desviam o olhar, procurando outra isca mais jovem, que lhes pareça mais indefesa. São uns olhos covardes, olhos de caça. Uma mulher se protege, até espera (infelizmente) isso de um homem da rua. Agora, de um conhecido, um amigo, um familiar? É algo que pega realmente de surpresa.

Júlia sentiu uma repulsa tão grande que a fez terminar o relacionamento. A situação lhe parecia ainda mais grave por não ter respeitado a própria amiga. Não teve pena. De fato, lançou os olhos de terror sobre ela, que, como qualquer mulher nessa situação, foi obrigada a sentir o que somos todas programadas a sentir: vergonha. Era, por um acaso, algum animal irracional que não conseguia se controlar?

Quem recebe esse tipo de olhar de alguém familiar, em geral demora a reagir, não por apatia, mas porque não esperava por isso. O cérebro da mulher é invadido pela frases automatizadas e implantadas pela sociedade: “Minha roupa está inadequada?” “Será que eu dei confiança pra isso?” “Tive alguma participação?” “O que está acontecendo, será que estou interpretando mal?” Não, filha, você não fez nada. Você está recebendo um olhar invasivo que, como qualquer abuso, gera desconforto e confusão — mesmo que não tenha feito nada, concluiu Júlia depois de muito refletir sobre o caso. Queria ter dito isso à amiga de Carlos, mas como dizer? Como sequer saber se ela teve consciência do que aconteceu? Apesar de saber que ela sentiu sim a pontada de asco no estômago.

Carlos implorou à Júlia por uma segunda chance. Disse que não sabia o que fazia, que nunca tinha reparado nisso, que não faria mais, que iria prestar atenção. A mesma ladainha que homens com comportamento inadequado dizem quando são flagrados. Ela disse que não. Hesitou o quanto pôde, mas, diante da insistência de Carlos, pensou: Pelo menos não disse que eu era maluca ou que vi coisa onde não havia, como muitos fazem, e decidiu, por fim, dar a ele uma segunda chance baseada na forma honesta com que sentiu a resposta. Porém, deu-se que nela agora um refluxo passou a coexistir com o medo de ver novamente os olhos malditos.

Contou para uma amiga sua o que havia acontecido e ela disse que poderia ser um caso de baixa autoestima de Júlia, que teria visto “pêlo em ovo”. Contou para uma colega de trabalho, que disse se tratar de um pequeno delito sobre o qual as mulheres não falam, mas que atormenta muitos casamentos. Inclusive o dela, mas que ela perdoava, pois o marido era fiel. Isso é ser fiel? Seria um vício?, pensou Júlia, sem no entanto compartilhar o pensamento com a colega. Contou para a mãe que concordou e nada disse para não “se meter”. Havia algo de podre na condescendência que fazia com que as mulheres da sua idade nunca falassem sobre qualquer tormento familiar para manter todos os demônios dentro de suas casas, todos não-analisados. Ao que parece, no passado ninguém metia mesmo a colher. Júlia refletiu sobre o grave defeito das mulheres de mentir para si mesmas.

Tanta coisa ela havia aprendido nos últimos tempos sobre quem ela era, sobre seu passado e sobre tudo. Percebeu que não havia recebido instrução sobre nada ou quase nada na vida. Aprendia as coisas às bordoadas, batendo a cabeça em cada poste da calçada. Queria ter sabido um pouco. Pouco o suficiente para não aceitar menos do que merecia. Agora restava a música “Nada mais” de Gal Costa tocando em looping na cabeça de Júlia toda vez que os dois saíam à rua. Lembrou-se dos velhos tarados dos ônibus que odiava, e pensou que já foram jovens. Isso é um dado inevitavelmente real, concordou consigo mesma. Todos os velhos tarados insuportáveis da lotação já foram jovens que tiveram sonhos e passearam com o cachorro às seis da tarde.

Esse pensamento fez Júlia encolher de nojo e de refluxo, que subia e descia rolando a pedra da fúria. Para onde vão as coisas todas sobre as quais as mulheres não falam e os homens fingem que não sabem?

Continua…


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