O novo texto da série estava pronto e seria publicado hoje. Na segunda-feira, 2 de fevereiro, no entanto, resolvi fazer uma última revisão. Acontece que era a data do aniversário de uma tia materna a qual completaria em 2026, se ainda fosse viva, cento e um anos. Não pude evitar trazê-la à lembrança. Sendo assim, mudei de ideia e lhes trago, nesta quinzena, o resultado das recordações.
Minha tia teve uma vida longa. Viveu até os noventa e oito anos, poucos meses antes de fazer noventa e nove. Nem sempre sua jornada foi fácil, considerando a condição de pobreza da família, a perda do pai, a juventude durante a Segunda Guerra Mundial e limitações de saúde, entre outros percalços comuns à trajetória de qualquer um. Não parecia, contudo, uma pessoa infeliz.
Da mesma maneira que as irmãs, era bastante religiosa, devota de Nossa Senhora, e gostava de escrever. Minha mãe redigia suas mensagens, pensamentos e anotações em múltiplas folhas de papel, ela, em contrapartida, como a irmã mais nova das três, usava cadernos. A diferença é que, ao invés das crônicas desta última, decidiu escrever cartas. O destinatário escolhido foi alguém muito especial, segundo me confidenciou certa ocasião: seu marido, falecido em 2003.
Ele havia sido o grande amor de sua vida. Quando morreu, a deixou, aos setenta e oito anos, vivendo com o filho mais novo do casal. Naturalmente, me disse, sentia sua falta. Isso, porém, não a deixava triste, pois acreditava que voltariam a se encontrar. Enquanto o reencontro não ocorria, criou uma forma de manter sua ligação: redigir as tais “cartas para o além”.
Contou-me o fato com um sorriso e ainda brincou, dizendo que a considerariam um pouco louca, talvez caduca. Respondi: de jeito nenhum! Longe disso, me parecia uma forma criativa de buscar conforto e cultivar o carinho e uma nostalgia saudável.
Apesar da forma epistolar, os escritos não deixavam de ter algum sabor de crônica do cotidiano. Neles, narrava acontecimentos, experiências, sentimentos, coisas ouvidas no rádio ou vistas na tevê. Mas, principalmente, era um espaço para declarações de amor, cantos de saudade e esperança.
Se cremos haver uma existência após esta nossa e conexão possível entre os seres, tal prática é uma forma bonita de encarar a perda e de tecer relações. Para mim, ideias e criações reverberam. Se forem positivas, iluminam o universo. Portanto, as cartas para o além da minha tia têm esse valor.


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