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Coração Itinerante – conto de Nick Pastorini


           À primeira vista, os figurinos extravagantes e a atmosfera mágica são os fatores que atraem os forasteiros para o interior de um circo itinerante. Porém, esses elementos são totalmente arquitetados e calculados. Quando criança, apesar de vir ao mundo sob uma tenda circense, eu era como uma forasteira. Pois, dentro da jovem alma havia tamanha ingenuidade que fortaleceu minha crença. Na infância, acreditava que a magia era real.
            Porém, com o passar do tempo, a ilusão se dissipou porque compreendi que a magia não passa de uma performance. Pois, a diferença é notável ao observar o comportamento dos circenses em diversas ocasiões. Sob a luz dos holofotes, a trupe sofre uma espécie de metamorfose. Desde a vestimenta até aos trejeitos, tudo se torna surreal e excêntrico. Porém, com o apagar das luzes, os artistas retornam a forma de meros humanos.
            – Marlene, você me escutou? O espetáculo começa daqui a três minutos. – Uma voz grave interrompeu minhas divagações.
            Eu reconheceria aquele collant vermelho em qualquer lugar. O desengonçado Giovanni já se transformou em O Contorcionista. Agora, estou na companhia de um homem atraente e inescrutável. Eu conhecia todas as performances porque era a encarregada de supervisionar os efeitos técnicos. As tecnologias são utilizadas para criar ilusões consideradas mágicas pelos espectadores.
           – Sim, estou terminando a última checagem. – Respondi no momento em que retornei ao presente.
           Os números dessa noite foram um sucesso. A plateia atirou dezenas de flores. Entretanto, o desempenho do espetáculo não foi o evento mais marcante. Na verdade, foi o trecho entreouvido de uma conversa. O responsável pelo início do diálogo era um menino que ainda não havia completado sua primeira década.
           – Mamãe, por que as luzes estão se apagando? Eu ainda não quero que acabe! – Esbravejou um menino após o final do show.
           A mulher poderia somente repreendê-lo, mas respirou fundo e optou por uma alternativa.
           – Meu filho, o tempo é algo que foge do nosso controle. Os bons momentos não seriam valorizados se durassem para sempre. – Explicou a moça antes de abraçar seu filho.
          A conversa reavivou a lembrança de um diálogo semelhante. Se não me engano, eu tinha a mesma idade da criança quando, alguns funcionários me encontraram em prantos ao lado de uma mala. Frases clichês foram utilizadas na tentativa de acalmar o choro. Entretanto, nenhuma surtiu efeito até que meu pai adentrou o local. Sua grande testa estava franzida de preocupação.

            – Por que vamos partir? Eu não quero me despedir dos meus amigos. – Questionei aos prantos.

            O homem reagiu rapidamente ao compreender o motivo do choro. Após cuidar tanto tempo de mim, ele sabia a melhor maneira de me confortar, por isso levou meu pequeno corpo ao encontro de seu peito.

            – Querida, não podemos parar. Se não partirmos, não existirão viagens. – Sussurrou o mestre do circo.

           A velocidade de reação demonstrou que a situação não o surpreendeu. Em algum momento, a crise já era esperada.

           – As viagens foram responsáveis pela união entre você e seus amigos. Sem elas, a magia não se espalharia e não nos recompensaria com lindas amizades. – Continuou o pai enquanto enxugava as minhas lágrimas.

          Essa memória remete ao elemento mais intrigante do circo: a impermanência. Os circenses estão sempre em constante movimento. Infelizmente, tal aspecto restringe seus relacionamentos. Normalmente, não cultivam relações com forasteiros porque estão fadadas ao sofrimento. A frequência das perdas não importa, pois nenhum ser humano é capaz de se habituar à partida.

          Alguns lenços manchados de lágrimas, noites em claro e beijos prolongados são provas de que mesmo os artistas mais experientes não são imunes à dor. Cada viagem significa partida. Quando é definido o próximo destino já está definida a próxima partida. Não há chegadas, somente partidas de algum lugar. Assim, cada artista circense é obrigado a deixar seus amores para trás.

         Após testemunhar tanta dor, decidi não interagir mais do o necessário com estrangeiros. Durante as viagens, a presença do meu pai era a minha única constante. Entretanto, eu descobriria que, apesar do meu conhecimento, havia caído em uma ilusão. No futuro, eu entenderia que não existe constante.

          O mestre circense nunca adoeceu. Quando uma gripe circulou por toda a trupe, meu pai foi o único que escapou ileso. Por isso, ao vê-lo debilitado e frágil em cima da cama, já estava ciente de seu fim.

          – Não acredito que partirá… – lamentei ao lado de sua cama.

          – Querida, é só mais uma viagem. Lembra que viagens são compostas somente de partidas? – Sussurrou o pai com suas últimas forças.
          Naquele momento, só pude assentir enquanto via a luz de seus olhos se apagarem. Infelizmente,
não poderei acompanhá-lo nessa viagem. Pela primeira vez desde o meu nascimento, o homem viajou sozinho e eu permaneci.

Instagram do autor: @nick_sketchbook_


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

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