O silêncio aprendeu teu nome na parede,
e o quarto o repete quando a noite cai;
há passos que escuto; sei que não procede;
é o tempo fingindo que volta atrás.
O maior monstro mora no que relembro:
não ruge, não morde, não mostra a mão.
Ele espera paciente, feito novembro,
e assina saudades no meu chão.
Há recordações que doem mais que a ausência,
porque tocam a pele sem permissão;
são fotos sem foco, pura insistência,
um quase-abraço em combustão.
Lembranças talvez nunca acontecidas
me visitam com rosto de verdade:
promessas ensaiadas, cenas vividas
num teatro cruel da saudade.
Guardo risos que não sei se ouvi,
conversas bordadas pelo pensar;
juras que o medo inventou por aqui
só para não deixar o vazio falar.
O tempo me cobra contas antigas,
juros altos por lembrar demais;
cada rememoração abre feridas
que sangram “e se?” e “jamais”.
Há dias em que o ontem pesa toneladas,
outros em que flutua, mas corta igual;
são sombras vestidas de madrugadas
me pedindo abrigo no meu quintal.
E sigo; não por força, por costume;
com o peito aprendendo a respirar.
A agonia dorme quando faço lume,
mas acorda se ouso te procurar.
Se um dia a dor cansar de me vencer,
que seja por falta de munição:
não por te esquecer (isso não sei fazer),
mas por aprender a viver com a lembrança na mão.
O maior tormento de um tempo de luto são as memórias…
Em memória de Sebastião Roque,
a saudade permanece onde o tempo não alcança.
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