Caro Dionísio,
Provei do sabor do amor, já me encontrei viciada no amargor do café e, de longe, fascinada, me perguntava o que te fazia fumar tanto, meu amado? Este cigarro que te sugava tanto e num instante extravasava nuvens… Como era um homem poético! Era tudo a estes olhos apaixonados, confesso…
Com saudade, recordo-me de você às 6 da matina… Te observei, sempre neste horário a tragar. Eu ao teu lado entornando meu café, lá nos fundos daquele maldito lugar, eu e você, o cigarro, meu café e sua fumaça que sentia, ainda sinto, na ponta da boca e me fazia gargalhar ao experimentar através de você um longo, que ainda não sabia, era um longo vício, amor.
Ainda recordo de nossas inópias sustentadas pela ácida e voraz vida, sobretudo por esta maldita sociedade e seus humanos… Recordo, também, daquele seu sorriso amarelo de quem já foi cafeinado, confessou-me que seu passado, outrora doce, restou a ser amargo…
Tentei pôr meu açúcar, tentei ser teu mascar de nicotina, salvar seja lá o que precisava ser salvo, mas tua alma apenas é, Dionísio, ainda assim te amei, ainda assim recordo do teu perfume esfumaçado que grudava no meu suor, recordo daquele fatídico dia, ao meio-dia, ao sair do trabalho e não ser mais esta mulher proibida, naqueles fundos, amassados e tragados por ti.
Dionísio, nem sei porquê desta carta borrada e derramada de memórias! É difícil, tão doloroso, como dói! Saber que partiu… Gastei minhas finanças comprando seus cigarros favoritos, comprei café, comprei amores…
Como pode nada fazer sentido sem tua alma viciada? Nada é tão vívido quanto teus olhos cinzas, que ainda exibiam desejo, resquícios deste vício que, a mim, perdura como eternidade…
Quem me dera, como você, fumar; acabei perdida em ruidosa neblina para estar perto de ti. Ah… o caminho desta lucidez é dolorosa, e o seu amor foi… o vício mais perigoso que toquei, fumei.
Com abstinência de você,
Ariadne.
Texto por Ellen Lessa


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