@revistaentrepoetas / @professorrenatocardoso

7 cliques

INTRANSITIVA

– Acabou!

Ela disse isso assim, sem rodeios, sem piscar. Fiquei olhando pra ela, esperando uma risada ou o objeto direto que me salvaria do abismo.

Interroguei-a com os olhos, que falar não podia. Tinha esquecido as palavras, perdido a sintaxe.

Nada veio depois disso. Nenhum complemento, nem sequer uma circunstância, a causa, a razão, desde quando? Depois de um longo silêncio balofo no quarto pequeno, ela insistiu:

– Acabou.

Noutro tom, mais firme, serena, peremptória.

Já se passaram anos desde a cena que não sai da minha lembrança. Sei dela com detalhes. A roupa que ela usava, o que fazia com as mãos, o vento que entrava inconveniente pela noite chuvosa e balançava ruidosamente a cortina, a porta do armário meio aberta, a nossa foto balançando na cabeceira da cama que nos separava, prestes a cair.

A separação é mesmo como o rasgo no meio da foto do casal. Cada um fica com uma parte da paisagem congelada atrás; o vaso de planta seco, o armário da sala com o vidro rachado, a mesa do jantar com restos de comida de um Natal há tempos, a poltrona com os jornais de domingo, os quadros na parede, as juventudes, a bicicleta.

E os filhos? O cachorro? A gata?

Do mundo construído em parceria, cada um leva para si as coisas e as memórias que pertencem aos dois, as dores e as saudades que cabem a cada um, as esperanças vãs ou o alívio. O espólio será carregado por um como um fardo, do qual a outra estará livre. Ela seguirá leve, revigorada, firme. Ele tropeçará para sempre sem saber o que fazer com o que lhe coube de herança que o enverga cada vez mais.

Os dias passarão eternos. As noites se sucederão sem descanso. A cada chuva, o cheiro do chão molhado e o mormaço sufocante sempre o recolocarão naquele lugar, com as mãos espalmadas sobre a cama, curvado de costas para a janela, todo olhos e ouvidos nela, como sempre esteve desde que se encantou. Ouvirá de novo a mesma frase de uma palavra só; no fim era o verbo.

Intransitiva se fez e assim se manteve para ele a partir de então. Desde aquele dia. Ele buscou complementos circunstanciais. Encontrava, de vez em quando adjetivos pelo caminho, mas nunca mais foi feliz, porque não topou em lugar nenhum com essa coisa abstrata que é a felicidade.


Descubra mais sobre Revista Entre Poetas & Poesias

Assine gratuitamente para receber nossos textos por e-mail.

Deixe um comentário

Sobre

Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

Com uma equipe formada por escritores de diferentes idades e áreas do conhecimento, buscamos sempre oferecer conteúdo de qualidade, promovendo o diálogo entre gerações e perspectivas diversas.

Se você deseja ter seu texto publicado, envie sua produção para:
revistaentrepoetasepoesias@gmail.com

Acesse: www.entrepoetasepoesias.com.br
Siga no Instagram: @revistaentrepoetas / @professorrenatocardoso
Canal no WhatsApp: Clique aqui para entrar

PESQUISA