Seu sonho era assistir à queima de fogos em Copacabana. Desde que a viu a primeira vez na televisão ficou com vontade de assistir de perto, sentir o cheiro da pólvora queimando, de estar no meio da multidão e no dia seguinte dizer aos colegas: “Eu estava lá.”
Marcelo tinha uns 12 anos e morava em Caxias, na Baixada Fluminense, e nunca tinha ido à Zona Sul. Não, não é todo carioca que conhece a Zona Sul. E a distância não é tão grande, grande mesmo é a diferença de classes – um abismo. E Marcelo fazia parte das estatísticas da classe menos favorecida – anos-luz da outra.
Uma vez quase foi à praia com um tio, mas o ônibus quebrou no caminho e o tio achou melhor voltar, a contragosto do garoto, é claro.
Mas agora iria à Zona Sul, a Copacabana, ver a queima de fogos. Era o presente de Natal que havia ganhado dos pais. Já tinham até comprado os bilhetes do metrô. Metrô é bom porque tem ar-condicionado e não quebra. Tinha catado umas latinhas pelos botecos vizinhos pra ganhar um dinheiro e gastar na praia. Acreditava que lá havia muitas coisas gostosas, diferentes dos cachorros-quentes e dos hambúrgueres da comunidade – a gente tem essa mania de achar que as coisas dos outros são melhores… E os gringos que falavam línguas estrangeiras? Se ao menos tivesse aprendido algumas palavras em inglês na escola, talvez pudesse falar com um deles na praia. Só sabia dizer “hi”. Até tentou aprender, mas a turma bagunçava muito nas aulas de inglês. Se soubesse falar, tiraria a maior onda! E as meninas de lá também eram muito bonitas… Mas bonito mesmo eram os fogos. Não falava inglês, não podia nem pensar em “ficar” com uma garotinha da Zona Sul, então era melhor se concentrar na queima de fogos. Era o bastante.
Chegou o grande dia. Marcelo acordou mais cedo, tamanha era a ansiedade. Lavou os tênis surrados e colocou-os em cima da laje, pois com aquele calorão de quase quarenta graus não demoraria muito a secar. Em seguida, separou a bermuda, a camisa e o boné e deixou lá, em cima da cama, como se fosse algo muito especial para ser usado em um momento muito especial. Na verdade, era isso. Um momento muito especial. Copacabana estaria lá, lotada de gente, mas mesmo assim esperando por ele, como que tivesse um quartinho lá no fundo do coração, reservado, para o menino. Sabia que seria mais um na multidão, porém queria ser exatamente este “mais um”. Isso já seria o suficiente, pois, apesar de novo ainda, sabia que a felicidade era feita de momentos. Não precisava ser rico pra ser feliz. Felicidade é um estado de espírito, e não ter coisas e mais coisas, ser isso ou aquilo.
Depois de preparar roupa, passagem e dinheiro, foi soltar pipa com os amigos na Rua de Cima. O céu estava aberto, de um azul infinito, e o vento propício para pipas. Em pouco tempo o espaço ficou colorido, pipas se cruzando, se cortando, subindo, caindo. Em baixo, meninos correndo, gritando, eufóricos, com mais uma pipa cortada. A disputa tornou-se acirradíssima. Marcelo desconcentrou-se um pouco e foi o suficiente pra ver sua pipa voar para longe, enquanto dezenas de meninos corriam atrás do troféu. Se fosse em um dia qualquer, ele teria ficado chateado. Naquele momento só se lembrava do Réveillon que estava prestes a acontecer. Só faltavam mais algumas horas.
Alguns meninos o zoavam, mas ele nem deu a mínima. Estava noutra, bem longe dali. Passou lentamente por um batalhão de meninos, sentou-se no meio-fio e ficou admirando aquela cena, olhando aquele céu multicor, com dezenas de pipas pra lá e pra cá. Engraçado como nunca havia percebido aquilo. Talvez por que estava sempre concentrado na pipa e nunca parava pra observar. É como um jogo de futebol: quem está jogando não tem a mesma visão da torcida. Orgulhou-se por fazer parte da turma que deixa o céu mais bonito nas manhãs de domingo e no final do dia.
Em casa, na hora do almoço, comeu pouco. Melhor seria comer na praia, à noite. Tinha o dinheiro das latinhas que havia vendido. Disse à mãe que estava sem fome, que tinha feito um lanche na casa de um amigo. Depois do almoço não largou o pé do pai, o tempo todo olhava pro relógio. Sairiam às três da tarde. Conferiu a carteira e o bilhete do metrô. Tudo certo.
Lembrou-se dos tênis, já deviam estar secos. Subiu a laje correndo, pegou-os no varal e uma bala perdida atravessou seu peito. Seu corpo foi jogado pra trás, quase sem vida. O pai o pegou nos braços, chorando, enquanto o menino parecia dançar ao vento, com os olhos brilhando, vendo a queima de fogos, os gringos, as menininhas da Zona Sul, os petiscos apetitosos do calçadão…
As luzes se apagaram… e com elas, um sonho.
João Rodrigues (Reriutaba – Ceará)


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