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Série Pequenas Memórias: Afilhada da Santa

Resolvi criar esta série a partir de histórias que me foram (e ainda são) contadas em bate-papos. Em geral, sou ouvinte de pessoas mais velhas, no entanto, isso não é regra e pode gerar surpresas. Quis chamar a série de “pequenas memórias”, por serem resgates de fragmentos de vidas. Embora verdadeiros, alerto: nem sempre explicitarei as identidades dos envolvidos. Espero que apreciem.

Para inaugurar os relatos, escolhi um testemunho inusitado de uma ex-vizinha, hoje falecida, com mais de noventa anos. Ela ficava sempre na portaria e na frente do prédio, vendo as modas, fiscalizando o trabalho do funcionário, ou o andamento das coisas no condomínio. Gostava de conversar e, como boa mineira, tinha sempre seus “causos”.

Certo dia, de passagem, me detive para lhe dar atenção. Muitas vezes, narrava eventos já contados e se queixava de algum achaque, mas, naquela tarde, me surpreendeu com uma novidade.

Quando jovem, tinha vivido numa cidade pequena, filha de uma família humilde. Enfatizou esse aspecto de sua história pessoal, pois tinha certa relevância para o tema. Por algum motivo, ignoro qual, tínhamos feito uma referência à religião. Ela, então, afirmou, muito compenetrada, ser afilhada de Nossa Senhora. A princípio, interpretei o fato como uma metáfora, ela, porém, seguiu, afiançando o caráter literal da declaração.

Segundo a narradora, pobres interioranos tinham, no passado, o costume de dar os filhos aos senhores de terras locais para batizar. A esperança era, de alguma forma, ver as crianças amparadas pela gente mais abastada. Com ela não foi diferente. Seu pai convidou um “coronel” e sua mulher para padrinhos da recém-nascida. Ocorreu, no entanto, que, na data marcada, ambos faltaram.

Todos reunidos na igrejinha do povoado, meio sem saber como resolver o impasse, receberam do vigário a solução. Ele e a santa seriam os padrinhos da menina. E foi assim que a pequena recebeu a melhor madrinha e intercessora desejada: a própria mãe de Jesus.

Não posso garantir a verdade do ocorrido, tanto porque, ao ser apenas um bebê, minha vizinha não se lembraria do fato, quanto por me parecer uma escolha anômala para o rito em si. Seja como for, nossa protagonista acreditava e depositava sua fé e gratidão em Maria, por sua acolhida naquele momento difícil e em tantos outros de sua longa vida.



Nota da autora: Esta série pode ser publicada de forma intermitente, intercalada entre textos de outra natureza e/ou temática. Como um escrito permeado de tempo, alguns eventos poderão atropelar o fluir dessas memórias e impor sua urgência sob a forma de crônicas diferentes.


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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