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Somente um dia recorrente – Nick Pastorini

Quando meus olhos se abriram pela manhã, soube que aquele dia seria um dos difíceis. Ontem, precisei comparecer a uma festa de aniversário. Não me leve a mal, era a comemoração dos trinta anos de um amigo, mas o excesso de socialização e estímulos sensoriais acabou com a minha energia.
Mesmo após uma noite de sono, acordei esgotado. Infelizmente, não havia tempo para descansar porque era segunda, um dos meus dias de trabalho. Várias turmas contavam com a minha presença, por isso me levantei da cama, arrumei só o que é estritamente necessário e chamei um motorista de aplicativo. Normalmente, pegar transportes coletivos já era um desafio. Naquele dia, andar de ônibus em dias ruins causaria uma crise na certa.
Infelizmente, o motorista cancelou a corrida após vários minutos de espera. Não estava atrasado, mas não chegaria vinte minutos antes do sinal escolar tocar como sempre. Isso era um problema..
Na entrada da escola, já precisei colocar o abafador de ruídos. Logo, a sirene anunciou o início das aulas. Entendo a necessidade do aviso, mas será que o som precisa ser tão ensurdecedor? Talvez, minha tolerância ao barulho estivesse menor naquela segunda. Por isso, decidi entrar em sala de aula com meus abafadores. Os protetores são internos, então não chamariam muita atenção.
Os dois primeiros períodos em uma turma foram relativamente tranquilos, apesar da quantidade de estudantes. Não posso afirmar o mesmo do terceiro. Aquela turma estava na aula de educação física antes, então a agitação ainda continuava presente quando cheguei.
A falta de atenção atrapalhando o andamento planejado para a aula e o som dos ventiladores ligados, devido ao calor depois dos exercícios, foram gatilhos para desregulação.
Andei de um lado para outro, agitando as mãos enquanto explicava o conteúdo programado. Não podia parar e deixar a sala antes do recreio, então tentei ao máximo mascarar meu desconforto.

Ao escutar o barulho incômodo da sirene, senti um misto de agonia e alívio. Na hora, saí do local sem forças para me despedir. Por sorte, eu tinha um período vago após o recreio, então não parei de me mover até entrar em uma cabine do banheiro.
Ali, permiti que meu corpo desabasse…

A sensação dos abafadores dentro dos ouvidos era demais. Arranquei os dois e os joguei no chão.
Parecia que minha alma havia deixado a carne e observava a casca vazia sem poder interferir. Minhas únicas companheiras eram as lágrimas… Elas escorriam pelo rosto enquanto me embalava. Com o tempo, a repetição do movimento fez com que eu recuperasse o controle do meu corpo. Tudo que restou, após a crise, foi um misto de tristeza e exaustão.
Nada disso era novidade, pois dias como esses são recorrentes na vida de um autista. Depois de desmoronar, juntamos os cacos e seguimos porque não existe outra opção. Muitas vezes somos vistos como fracos e sensíveis, mas tenho certeza de que várias pessoas ditas “normais” não aguentariam. Diariamente, neurodivergentes enfrentam muitas dificuldades inimagináveis. A verdade é que somos fortes por sobreviver em uma sociedade não inclusiva como esta.


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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