Atrás de mim, a voz masculina decretou:
– Um zero à esquerda!
A expressão e a musculatura da voz, firme, mesmo visivelmente gasta pelo tempo, chamaram a minha atenção.
Estanquei o passo, fingindo um incômodo súbito no pé. Deixei as vozes passarem a minha frente. Os dois homens velhos, fingindo a firmeza que já não tinham, passaram rente a mim, na calça estreitada pela banca de jornal na qual me apoiei, simulando uma pedrinha no sapato.
O mais baixo vociferou:
– Não tem onde cair morto!
Segui-os.
Pararam na esquina, esperando o verde do sinal de pedestres. Fiquei logo atrás deles, tão perto, que o mais alto se virou para ver o que era. Eu continuei olhando em frente, fingindo alheamento.
O mais baixo, que não parara de falar, emendou:
– E fica posando de bacana!
O velho troncudo era um poço de impropérios gastos e antigos, um verdadeiro antiquário linguístico. O mais alto e magro só ouvia, sempre olhando em volta, vasculhando o território, a investigar com os sentidos quem estava por perto.
Resolvi ficar a uma distância razoável, para não chamar a atenção dos dois, mas que ainda me permitisse ouvi-los.
Eu sou assim: uma palavra, uma expressão, uma frase me fazem largar tudo, o encontro, o caminho de casa, a missa, o compromisso, para ir até o fim da história. Morro de raiva das que são interrompidas pelo andar do elevador que chega. E das pessoas insensíveis que saltam do ônibus sem acabar de contar o causo interessantíssimo que começaram. Sem falar nos que, ao perceberem meus ouvidos ligados na conversa íntima, passam a falar baixinho ao telefone, egoístas, com a mão em conchinha sobre o aparelho.
É possível que algum leitor desta crônica vá me chamar indevidamente de fofoqueiro, o que rejeito. Sou, sim, interessado nas pessoas e no que elas dizem, porque o que dizem é o que são: somos o que pronunciamos. As histórias que ouço, às escondidas, no metrô, no elevador, na rua, me interessam, sim, mas sou mais encantado pelas pessoas. Gosto da fala pela qual me chegam, da língua que ao contar um episódio, triste ou engraçado, revela aquele que conta.
Com aqueles dois não era diferente. Quem ainda usa uma dessas: “Um zero à esquerda!”, “Não tem onde cair morto!”, “E fica posando de bacana…”? E quem mereceria essas imprecações?
Tive de frear subitamente a passada, para não ser jogado ao chão pelo ciclista voador. Nessa, perdi os conversadores, que se aproveitaram do meu descuido e se evadiram, levando junto o causo e a língua.
Retomei o caminho da consulta e, na sala de espera, escrevi esta crônica que começou no meio de uma história que não sei como termina. As crônicas quase sempre vêm daí, de pedaços de conversas, de frases entrecortadas, de ideias espargidas ao léu e que vêm florescer nos meus ouvidos férteis, de onde despencam até a tela em que, finalmente, brotam, em forma de palavras, para serem colhidas por quem as leia. Uma história sem fim.


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