Elias Antunes
Diz-me, memória: ainda resta arrumar
o quarto, quarar roupas,
abrir a janela, regar
os girassóis,
deixar entrar a luz do perdão
neste corpo em escombros,
na revolução perfeita da dor?
Diz-me, memória: de que adianta possuir os reinos
se é tão difícil manejar destinos,
puxar da cisterna do mundo
a água da vida?
Diz-me, memória: por que ainda acompanhar
o passeio dos lobos no crepúsculo,
se o sonho não aplaca a sede
e os leões do medo
já comeram toda a esperança?
Mas no fundo da memória ainda sopra o mágico espírito,
ainda trabalha o cérebro humilde
na reconstrução do mundo,
ainda vive um coração na lei da luz!
Fonte da imagem: Foto do autor.


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