Eu tinha oito anos, e você, mulher, quantos anos tinha? Eu fingia que estava tudo bem para não alarmar ninguém, mas o peso do silêncio custou caro demais. Me disseram que eu não era capaz de me reerguer, que poderia parecer uma terrível brincadeira tentar viver. Como mulher, tenho força instintiva, mesmo que os lamentáveis episódios ainda sigam vivos na minha vida.
Há vida após o momento em que julgamos como final, em que pensamos que não iríamos sobreviver. Eu sei, meu bem, eu sei bem que te machucaram, eu sei que te pisaram e eu sei que você não merecia.
Hoje, protegemos nossas meninas porque fomos meninas feridas, e talvez, ainda sejamos, quem poderá dizer que não?
Mulher, eu sei que você chorou, eu sei que doeu, eu sei que o mundo acabou e desabou a
cada hora do dia. Receba minha empatia e meu respeito. Porque eu sei, menina, te causaram tantos danos, que os anos tornaram-se estranhos.
E quem somos por trás dessa máscara social? Quantas vezes rimos sem rir de verdade?
Quantas vezes andamos com expressões de soberba porque queríamos chorar? Não precisa me responder, apenas pense em você.
Parece óbvio, mas ninguém pode te julgar, porque quando dói, é só você que sente. Não
somos indolentes, ainda que forçadas a sermos valentes para encarar essa selva que nos cerca.
Toda mulher tem uma história violenta para contar, mas nem todas conseguem, o que é totalmente compreensível.
Andei observando que se você reparar no olhar de uma mulher, verá uma menina, uma fantasia frustrada e águas que ameaçam inundar a qualquer despertar.
Eu sei, meu bem, eu sei bem que mentiram pra você, que te enganaram, que te levaram ao céu e depois tiraram a escada, te deixando estatelada.
Sua força não deve ser usada apenas para superar e seguir em frente, há tanto o que se empregar a ela, mesmo que pareça mentira. Contudo, eu não mentiria pra você, mulher, porque tudo começou quando eu tinha oito anos… Garanto que ainda há um sonho que
necessita da tua força, de uma amiga que precisa da tua força, e acima de tudo, há você que também precisa dessa força. Porém, não deixe de descansar, não temos que ser fortes o tempo inteiro.
Temos valor, não utilidade. Temos verdade, vaidade, inseguranças, traumas e uma infinidade de coisas que caminham conosco.
É, mulher, não romantize teu sofrimento, se tiver que chorar, viva o momento e se esvazie,
chore sempre que precisar. E quando precisar de ajuda, busque ajuda em outra mulher, ela vai te entender, porque existe um sofrimento coletivo sendo cuspido pelo egoísmo.
É muito fácil dizer: “Você não está sozinha!” quando, na maior parte das vezes, estamos
literalmente sós. Então, use de sua voz e diga a si que ninguém tem o poder de te destruir, mesmo em momentos de fraqueza, ninguém poderá destruir o que é real, e você é realmente forte para encarar isso, sorrindo, ainda que doa. Quantas vezes você se doou enquanto se
doía? Fingiu que estava bem, fingiu que não precisava de ajuda, fingiu que não havia passado e ajudou quem precisou.
Eu tenho vinte e nove anos, mulher, e você, quantos têm? Quais são as histórias por trás das tatuagens, cicatrizes, canções e opiniões?
Eu sei, meu bem, eu sei muito bem que existem dias difíceis, solidão e insistentes indagações: Por que fizeram isso comigo? Eu merecia tudo isso? Quando vai parar de doer?
É, mulher, eu queria saber responder, mas também busco essas mesmas respostas. Todavia, estou disposta a te ajudar. Não tenho poderes, não sou Deus, não sou Senhora, mas sou
sonhadora e sonho com o dia em que nós, mulheres, possamos ter paz.
Eu acho que ainda tenho oito anos, e você, mulher, o que tem na sua alma? Me olha nos olhos, aqui estou!
Você nunca se perderá do que é realmente seu, pode esquecer em algum lugar, mas não perderá. E você pertence a você. Nas noites de frio, procure abrigo em metade do seu ser e seja o que tanto precisa, seja precisa quando se der amor. Porque já te machucaram demais, mulher, já te fizeram sofrer demais. Não haja consigo da mesma forma que agiram ao te deixar em prantos. Trabalhe em você, foque em você, seja você, busque você, aprenda com
você. Abrace a sua criança, ela precisa de você. Cuide de sua menina como ninguém cuidou. Abrace sua mocinha sonhadora com laços de esperança.
Porque, mulher, ontem eu tinha oito anos e hoje tenho vinte e nove. Não sei quantos anos
você tem e/ou quantos anos você tinha, mas posso garantir que há vida, há muita vida, meu bem! Ainda que injusta, a vida acontece a cada palavra que digito, a cada lágrima que derramo, a cada coisa que deixo de dizer.
Viva mulher!
Viva, mulher!
Há quem te quer bem e o tempo há de devolver a quem te machucou. Um dia, você olhará e verá que a dor passou, e nesse dia você verá que sua força é maior que qualquer coisa.
Apenas voe alto, abrace suas amigas, dê uma chance a si mesma e, de verdade, verás que não é mera poesia, você merece um mar de coisas bonitas!


Deixe um comentário