— Às vezes, a vida te arranca uma perna, um braço, um fiapo que seja de ilusão e, depois, a gente caminha assim meio manca, como se arrastasse um cadáver nas costas. Aí vem o medo e se avizinha, sorrateiro, se esgueirando por alguma viela de sentimento. Ele está sempre à espreita e eu digo em frente ao espelho: só por hoje não vou sentir rancor.
— Mas não foi isso que eu perguntei, tia. Eu perguntei quando é que as coisas ficam tão difíceis? Igual ao que você disse antes.
— Ah, sim. É num momento…
Laura tenta se lembrar de como era antes, um tempo pré-sofrimento, uma espécie de lugar paleolítico da alegria (ou talvez da inocência), onde não existia dor. Acabou se lembrando de uma ocasião de quando era pequena e foi pela primeira vez a uma igreja.
— Michelle, eu devia ter uns oito anos, quase a sua idade. Sua avó era muito religiosa e me levou pela primeira vez à missa. Acho que ela se mortificava por eu ainda não ter recebido a primeira comunhão, não participar dos grupos, das apresentações, enfim, da coisa toda. Eu lembro que fiquei parada em frente ao portão colossal. Eu tremia de frio e de excitação. Afinal, o que ia acontecer ali de tão especial? Sua avó me repreendia, porque excesso de entusiasmo não era um afeto muito cristão. Moderação, minha filha. Moderação, ela repetia assim, ajeitando a saia de tricoline.
— E o que houve?
Nós subimos as longas escadas que se abriram depois das grades de ferro e pude sentir o gosto metálico atrás da língua quando eu perguntei: “Mamãe, o que é aquilo na ponta da casa?” Ela respondeu: “É uma cruz, minha filha”. Eu não entendi na hora. “Essa cruz serve pra quê?”, eu questionei assim da forma mais pueril e sua avó respondeu: “Serve pra olhar, ué. É sagrada”.
— É… a vovó tem uma cara de brava nas fotos mesmo. Mas depois de velha até que ficou mais mansa. Acho que a idade acalma, né?
— Amortece. Mas voltando à história: eu acenei que sim, porque a sua avó fez essa cara de quem comeu e não gostou. Eu entendi que aquele era um lugar para olhar e não para fazer perguntas. Ao entrar, vi muitas velas espalhadas, de várias formas e tamanhos. Achei curioso e, adoçando a voz, perguntei: “Mamãe, pra que tanta vela? Se elas caírem, não pega fogo nas cortinas não?
— Aposto que a vovó ficou irritada!
— E como! Ela me pegou pelos braços e me colocou sentada no banco. Eu me contorcia no assento duro e desconfortável. Lá pelo meio da missa, eu perguntei: “Por que eu não posso perguntar?” Ela me ajeitou segurando com força os meus braços e eu comecei a chorar. Por fim, ela falou sussurrando no meu ouvido que eu era uma mocinha e devia me comportar para ficarem felizes comigo. Daquele momento em diante, eu meio que passei a sentir um apelo para agradar aos outros para me sentir amada, “ser a boazinha”, sabe? Como se tivesse que merecer o amor das pessoas.
— Mas por que a vovó era assim?
— E eu que sei? O que se pode saber de uma pessoa… Às vezes nem a própria pessoa sabe de si e vive assim caminhando meio inconsciente. Acho que era orgulho. E o orgulho é o oposto do afeto, porque é irmão da vaidade. E ninguém pode ser sincera sendo tão orgulhosa. Talvez seja um problema de quando as pessoas ficam mais velhas, sabe… As pessoas nunca são uma coisa só, eu demorei pra entender isso. Nós dizemos que algo é bom ou ruim. Mas quando se trata de pessoas, elas podem ser igualmente boas e más de formas diferentes e nem se dar conta. Quer dizer, às vezes uma pessoa é super inteligente e dedicada no trabalho, mas deixa muito a desejar como mãe. E é a mesma pessoa.
— Acho que entendi. Você usou umas palavras estranhas. Mas você é velha e não é assim desse jeito.
— Como assim, desse jeito?
— Meio amargurada, sei lá. Resmungona, com um ar cansado, feito um trem que já partiu.
— Ah então já “zerei a vida”, como vocês falam. O segredo é aprender a observar, pelo menos isso eu aprendi isso com a sua avó. Infelizmente, ela só se preocupava com o que os outros estavam pensando ou achando dela.
— Então, você não gosta de igrejas, né?
— Não, pelo contrário. Gosto de ir ao templo quando não tem ninguém, igual na biblioteca que a gente foi ontem. Assim como as estantes cheias de livros e os altares vazios, somos mais felizes quando ninguém está olhando.


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