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Da imagem e da palavra

Não lembro mais quando comecei a escrever. Muito menos quando foi a primeira vez que segurei um lápis. Minha família guarda meu primeiro desenho, mas não há registros das minhas primeiras letras nem mesmo antes dos textos. Não sei quando desenhei minha primeira letra. Quais eram os caracteres? Parece que a imagem foi mais impactante e prevaleceu sobre a palavra. Na arqueologia da vida, meu primeiro arqueólogo foi meu pai. Ele preservou meu primeiro desenho intacto e plastificado. Haveria guardado minha primeira história? Infelizmente, não o fez. Eram textos secretos e indecifráveis, dos quais ele e ninguém jamais tomou ciência. Nem mesmo os cientistas. Meus primeiros rabiscos estão todos destruídos segundo a minha vontade e à vontade do tempo…

               Há muito ouço duma imagem valer por mil palavras e das palavras ferirem mais do que uma arma. Talvez por isso, as palavras sejam mais perigosas. Elas podem, inclusive, se transformarem em sons de conversas, música ou gritos. Elas carregam símbolos e abstrações dependentes da decifração de algo além dos códigos da língua. Tudo vai além da gramática numa força inimaginável e descontrolável gerada não em si mesmas (as palavras), mas sim a partir do que as retinas do leitor, os tímpanos do ouvinte ou os dedos dos cegos capitarem. Uma simples combinação de letras, em realidade não tem nada de simples. Tem o poder incrível de incendiar, inundar, espalhar e congelar, fecundar e tocar. Tudo isso poderosamente em quem recebe as palavras. Esses sim são os tônicos, os elixires, os bálsamos a manterem forte um texto. São também capazes de envenenar, aniquilar, apodrecer as palavras.

               Tanto poder de julgamento e de ação sobre um texto. Tanto apreço e tanta repulsa. Curiosidade e desprezo. Diante dum texto, nosso empenho e disciplina precisam se fazer presentes, mas a indolência e a procrastinação tentam atrapalhar a todo instante. A propaganda, a polêmica e a censura servem como estranhos motivadores da leitura, principalmente em tempos tão estranhos como os atuais. Dizem que a censura acabou. Somos livres para dizermos (e escrevermos) o que quisermos. Não acredito exatamente assim. A censura mudou. Os interesses mudaram e os discursos também. O poder precisa ser controlado a qualquer custo. Isso pode significar o apagamento da escrita de muitos (ou da maioria). Não posso dizer que não escrevemos. Em realidade, escrevemos mais do que nossos ancestrais. Nunca se publicou tanto quanto agora. Publica-se o quê? Para quê? Por quê? Para quem? Quando? Onde?

               Não basta responder a essas perguntas. Notícias são criadas a partir das respostas a elas, todavia nem sempre as respostas são interessantes para todos. A bem da verdade, nem sempre estamos noticiando algo. A escrita pode ser a expressão dum pensamento. Acredito eu, na maioria das vezes, ser isso mesmo. É um transbordamento de ideias a saírem em jatos ou a escorrerem silenciosamente para o terreno fértil da crítica. Não sabemos do quanto as palavras podem gerar vida invisível, mas alguém sabe. Dependendo desse alguém, pode haver frutos ou não. A lavoura pode secar. Pode também se manter como um canteiro pequeno e bem cuidado. Horta? Jardim? Pomar? Monocultura altamente rentável?

               Observam-se as plantas cultivadas. Sentem-se os seus aromas. São comidas, destruídas e replantadas. Alguém pode fotografar e congelar o seu olhar sobre a vegetação no mesmo nível e com lentes simples. Pode também olhar do alto dum platô e fazer seu registro de lá, bem distante. Quem sabe para se manter bem longe do pólen, da terra e dos possíveis insetos? Seu registro fotográfico pode permanecer e substituir milhões de palavras. Talvez gerar outros milhões. Uma coisa é certa: aquela lavoura será consumida por muitos e negada a tantos outros. Nesse momento, a imagem em seu suporte físico (ou virtual) substitui a palavra e sua abstração porque gera outras abstrações menos precisas e, talvez, menos perigosas.  


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Uma resposta para “Da imagem e da palavra”.

  1. Avatar de Cristina Silva de Oliveira
    Cristina Silva de Oliveira

    Excelente texto! Parabéns!

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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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