São Gonçalo sempre esteve nos noticiários locais, e, às vezes, nacionais, por causa de escândalos e violências. Coisas do cotidiano de uma cidade chamada de dormitório e abandonada.Porém, esqueceram que a cultura aqui sempre pulsou, e ainda pulsa forte. E, um belo dia, os artistas resolveram se unir. Resolveram mostrar que não dependem de ninguém (a não ser do público, claro).Um belo dia, um Festival Literário foi montado e cedido, em parceria, aos seus artistas. São Gonçalo, que antes era só violência e escândalo, passa a respirar arte. A violência não cessou, nem os escândalos.O Festival chamou a atenção da grande mídia. E a maior rede de comunicação do país se fez presente com seu noticiário local. Era um típico sábado de primavera, estava quente e o cansaço batia pela manhã, pois, na noite anterior, o Diário havia se apresentado no dito festival.O telefone toca, sem sucesso (confesso que não sou dos caras que atendem ligações facilmente). Uma mensagem no WhatsApp chegou, pensei ser uma simples mensagem como tantas outras, mas não foi.Era a Angela, dizendo para eu partir para o Shopping, pois a emissora famosa estava lá. Não estava muito confiante, mas topei a proposta, afinal deveria levar a maquininha de cartão para que eles, autores amigos, pudessem ampliar as vendas no festival.Esperei o 10, peguei o 20A (o 10 demora muito). O trajeto entre o Rocha e o Centro de São Gonçalo não dura mais que 25 minutos e, particularmente, neste dia foi mais rápido — e assim em 15 minutos eu estava lá.Cheguei e dei de cara com a porta. O Shopping estava fechado. O coração acelerou e logo pensei: “Será que foram embora?”. Via o Eberton entre as frestas do portão. Deu vontade de chamá-lo, mas a vergonha foi maior.O portão abriu. Era 10h da manhã, pontualmente. Cerca de 80 pessoas entraram. Falei com o Eberton e logo encontrei a Angela. Senti nela a preocupação de que algo desse errado.Entramos e esperamos. Encontrei Jota Sobrinho (tínhamos um programa de rádio para fazer no dia).Conversa vai, conversa vem, o repórter chegou com sua câmera e microfone. Todos estavam agitados. Todos queriam mostrar seus trabalhos. Fiquei somente observando enquanto Angela articulava tudo.O desânimo de mostrar o Diário da Poesia bateu. Estava prestes a ir cumprir o compromisso com o Jota na emissora de rádio, quando ouvi: “Espera! Não tirei você de casa à toa”.Era Angela novamente. Ela conseguiu que o repórter viesse falar conosco. Mostramos o nosso trabalho e a nossa força de grupo. Ele se convenceu e nos convidou a entrar ao vivo.O repórter nos posicionou entre os escritores. A mão começou a ficar trêmula. O medo de gaguejar, de errar, de não conseguir, tudo isso vinha à cabeça o tempo todo.A luz da câmera acendeu, sinal que chegou a hora, o programa estava ao vivo. Lembrava que sempre vi isso acontecer em casa na posição de telespectador. O outro lado é muito diferente.Primeiro falou João (para ele é comum, somente mais uma entrada ao vivo). Os segundos passavam. Neste momento tudo some da cabeça e o coração parece que para de bater.Chegou minha tão sonhada vez. Numa fração de 5 segundos, 10 anos de projeto passaram pela cabeça. Ele chegou. A luz da câmera atrapalhou um pouco. Consegui falar o que estávamos precisando: divulgar o lançamento do nosso livro.Foram 32 segundos. Os maiores 32 segundos que poderíamos ter. No total foram 3 minutos, que São Gonçalo pode mostrar que não se vive só de violência, mas de arte também.O WhatsApp ferveu de mensagens e fotos. E fim da gravação.


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