O casal discutiu embaixo da minha janela por horas. Xingavam-se, cada um de lado da rua, em calçadas diferentes, indo e voltando, pra frente e pra trás, sempre em direções contrárias. Ele andava no fluxo, ela dava meia-volta, e ia contra os carros. Ela parava dez metros depois, virava-se inesperadamente e partia decidida em direção à esquina, enquanto na outra calçada, ele fazia o movimento inverso. Os palavrões se intensificavam quando eles passavam um pelo outro, tendo só o asfalto a separá-los, naquele duelo de imprecações em altíssimo volume.
Ficaram nisso. Ela tinha uns panos e papelões nas mãos, ele carregava um enorme saco preto com latinhas de cerveja que chacoalhavam mais alto quando ele ficava mais exaltado e mudava nervosamente o saco de mão. Os dois, muito magros, eram ágeis, circenses e trágicos em seus rodopios. Falavam quase sempre ao mesmo tempo, coisas sem sentido, às vezes para interlocutores invisíveis, alguém talvez que pudesse entender o que um exigia do outro.
Quando a mulher rompeu o ciclo e, em vez de dar a meia-volta costumeira, seguiu caminho e atravessou a desabitada avenida em que minha rua desemboca, perdemos, eu e ele, sua presença, mas continuamos a ouvi-la, aos berros, a reclamar, a dizer desaforos, a fazer ameaças de ir à polícia. Ele, que ainda não notara o afastamento da mulher, porque tinha continuado mecanicamente seu caminho até o rodopio, respondia com frases amputadas, pedaços de palavras, palavrões incompletos, mas sua voz já não tinha mais a mesma energia.
De repente, sem o eco das respostas insanas da companheira de infortúnio, reparou que ela já não o acompanhava às avessas, e correu até aonde ela parecia estar indo. Em três passos lépidos atravessou a rua. Segui com esforço as vozes, que se tornavam cada vez mais débeis e finalmente os perdi. Continuei à janela, desejando que voltassem. Queria saber o fim da história, se houve a reconciliação, ou se continuariam assim até que o sono os colhesse e os dois fossem enfim dormir agarradinhos, como já vira outros como eles, embaixo de alguma marquise.
Interesso-me pela vida dos que vivem como esse casal, nas ruas, à própria sorte, um dia de cada vez, a depender de tudo e de todos. À noite, quando a cidade é só deles, levantam-se do sono profundo em que hibernam, durante o dia, e perambulam pelas ruas em sua busca diária e noturna pela sobrevivência. Nessas horas, brigam por uma latinha ou por algum resto de comida que possa aliviar a fome.
Outra noite, um homem passou pela minha janela, arrastando com enorme esforço uma aparentemente pesadíssima luminária de ferro. Atrás, outros desvalidos seguiam o sortudo descobridor daquela pepita valiosíssima numa romaria esquisita até o ferro velho há muitos quilômetros dali. Talvez o meu casal estivesse entre os romeiros, não saberia dizer. São todos tão parecidos em seus andrajos e infortúnios…
Deitei-me e com esforço, adormeci, pedindo a Deus, exagerando Vinícius, por essa minha gente, que é gente miserável e sempre me dá também enorme vontade de chorar.
Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, pesado de sono da noite mal dormida, avistei um casal como aquele, encolhidos os dois embaixo de um cobertor curto, na manhã fria de junho. Torci para que fossem os que discutiam enlouquecidamente horas antes, sob a minha janela. Se forem mesmo, ficarei um pouco menos infeliz. Pelo menos estarão juntos, terão um ao outro para dividir as desesperanças e a pouca comida. Deus queira!


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