Nesta semana, no que eu chamaria de limpeza de ano novo, estava transferindo algumas fotos do celular para o computador, quando me deparei com imagens de duas palmeiras talipot, do final de novembro passado, colhidas no Jardim Botânico. A peculiaridade dessa planta, originária do sul da Índia e do Sri Lanka, é que leva entre quarenta e setenta anos para florir. São milhares de pequenas flores em cacho, como uma coroa no topo da copa. Depois de murchas, os frutos surgem, amadurecem e a árvore morre. Portanto, ver uma delas florida, como tive o prazer, é um espetáculo e um privilégio raro.
Em certa ocasião, fazendo um curso de jardinagem, ouvi da professora que plantas sofridas, muitas vezes, reúnem as últimas energias para florescer e deixar sua marca sob a forma de sementes duma nova vida. Não é exatamente o caso das talipot, contudo, há um certo paralelismo. Afinal, mesmo sem o sofrimento, seu viver se desenvolve em torno ao crescimento visando gerar condições para futuras palmeiras. Encerra, assim, sua presença na Terra com exuberância.
E, já que falei em plantas, pude, finalmente, a partir de dezembro, apreciar várias flores nos ramos pendentes de meu aspargo-alfinete. São miúdas, brancas, delicadas, parecendo estrelinhas colgadas, como enfeites de uma árvore de Natal (bem apropriado, aliás, para o período). Creio que ele gostou do calor tórrido vivenciado há pouco e resolveu nos dar um presente para os olhos. Em breve, virão os frutos: miúdas bolas vermelhas (cuidado; são tóxicas!).
Ora, nascimento, vida e morte fazem parte de um ciclo comum a todos os seres vivos. Podem ser eventos espetaculares ou singelos, mas sempre carregados de significado, se quisermos nos abrir a eles. Nos inícios de ano, os balanços do período vivido e as expectativas diante do que virá ocupam as mentes, entre uma distração e outra. Por pior que tenha sido o que passou, quase arrisco dizer: o sentimento predominante ante a estrada recém aberta é de esperança e positividade renovadas.
Neste sentido, nenhuma experiência é vã. A beleza pode ser encontrada oculta sob diversas roupagens. No seu silêncio, os vegetais ensinam lições de paciência, florescimento, resistência, adaptação, generosidade e ternura. Cabe a nós, do reino animal, despertarmos tal sensibilidade. Aí, todo o ciclo será frutífero e abundante, independentemente das intempéries.


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