Na rua da Frésia, bairro dos Sino Azuis de Peônia havia um bosque de flores e árvore de pecã. Era lindo, era onde pairava a penumbra do sol, onde existia flores caídas no afasto molhada depois da chuva. Você já viu? Cheiro de capim da verde mata. Hoje em algum lugar que passei sentir aquele aroma. Aquele pássaro que não sei o nome, cantou. Cigarra cantando como se fossem lobos no fundo uivando da noite. Tem sensações boas que não sei explicar. Bem que ele disse que os pássaros de lá não gorjeiam como os daqui.
— Olívia, Olívia.
Ouço alguém chamando meu nome em meio a meus devaneios.
Sabe quando acontece algo atrapalhado com você que provavelmente ninguém vê? Mas ele viu, porque ele estava prestando atenção em mim. Só ouvi uma risada ao fundo depois de eu ter desempilhado aquelas caixinhas da loja que caíram por estar distraída com meus pensamentos.
Seu sorriso feliz é a minha maior recompensa e eu não entendo o porquê, já que eu não o conheço. As vezes tento buscar, talvez inconscientemente conversas com as coisas que já existiu entre nós, mas não mais ele.
Voltei com ele para esse caminho das flores e disse que certamente, se ele fosse uma árvore, ele seria esse. Com certeza. Olha é bonita. A mais bonita desse bosque e a mais alta. Ele sorriu.
Eu paro de pensar por um momento. Depois volto a pensar. No momento eu nem sabia, mas se tornou uma lembrança boa. Acho que no momento nem tô muito boa para responder coisas sobre mim. Ainda bem que pararam de falar comigo. Sinto que não tenho olhos para mais ninguém.
— Deve ter um bom motivo para você estar aqui? perguntei ao moço bonito que me acompanhava no bosque sentado banco de jardim de varanda daqueles de madeira e ele respondeu de forma suave
— Não posso evitar querer continuar aqui, mas você não descobrir isso sentada aqui comigo.
A gente gosta de como um o outro pensa a vida ou costuma pensar. Podemos conversar sobre pão, mas só queremos conversar porque é agradável. Pensar nele é como um abrigo. Quero ir pra lá quando me sinto cansada e quando o mundo me faz triste. Ele me passa um conforto tão grande, que eu tenho vontade de falar com ele toda hora.
Ele tem um jeito interessante e um olhar intenso. Ouvi dizer, por aí, que eu era esquisita, mas divertida. Quando ninguém mais via e nem eu mesma, ele acreditou e viu um lado bom em mim, até nos meus medos.
Parece doideira, né, mas me acalmava e tirava a toda ansiedade segurar uma Barbie na rua. Ele levava uma boneca e começava a brincar no meio das pessoas, uns olhavam torto, outros percebiam o gesto e parabenizavam em silêncio de um olhar, mesmo nervosa eu via.
— Não precisa se envergonhar, sabe disso, né?
Acho que comi algo estragada noite passada. Disse ele em um tom brincalhão, mas preocupado e eu respondi — Que vergonhoso você ficar passando mal nos lugares.
— Não há nada de vergonhoso nisso. Ele respondeu com um afago em seu olhar.
De uma forma que nem eu mais sabia que sabia sorrir. Ele era do tipo que deixava as crianças fazerem o que quiserem com ele e eu, digamos, estava de mal humor, mas aquilo me fez sorrir. O desejo pelos seus braços era tão familiar.
Um amigo dele aprece e observa a cena.
— É o jaleco, elas adoram.
— Ela ta o dia todo me olhando assim. Ele respirou fundo mostrado paciência.
— Ela perdeu a memória e você se apaixonou por ela. Fala a verdade!? Seu amigos eu um sorriso maior do que o habitual.
— Acho que ela deve ta pensando que sou namorado dela agora de novo. Ontem eu era um amigo de infância. Olha lá vem ela.
— Amor, você anda estranho comigo. Ele em silêncio atônito e eu ameaço a chorar.
Ele diz não ser nada e dá batidinhas na minha cabeça.
Contudo me aproximo dele
— Quero outra coisa.
Seguro a mão dele.
Ele engole a seco a saliva e tímido permanece calado encarando meu rosto.
— Quero brincar de boneca de novo, você é o único menino que é meu amigo.
Enquanto sentados no gramado senti saudade dele novamente.
— Você disse que estávamos juntos, mas engraçado eu não lembro de ter sido pedida em namoro.
— E porque você não sabe disso?
Olho pra ele como gato sem lar e riu embaraçada pela sua seriedade.
— Deve ser porque faz muito tempo
— Na verdade nunca fomos, Olivia. É tudo da sua cabeça. Eu sou o seu médico.
Eu começo a chorar não entendo o porquê ele tinha sido tão grosseiro comigo. Até eu um lapso que finalmente me faz lembrar… mas não deixo de ficar triste porque o sentimento era de verdade, mesmo confusa.
— Você sente falta de alguém, mas não sou eu, Olívia.
— E você fica triste por isso? Se sente mal por isso?
Passou-se dias já de alta e volto a clínica para fazer o mesmo trajeto que fiz durante muito tempo.
— Eu recebi um conselho de quem disse “você não percebeu que acabou de perder algo muito precioso.” Eu gostei de ser tudo pra você nesse tempo, seu médico, seu amigo, mais ainda sua versão namorada comigo. Eu rio em meio as lágrimas.
— Mas eu lembro de você, eu nunca esqueci, só lembro de você e mais ninguém mais.


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