Numa conversa recente, meu marido falou de seu espanto diante do preço de um artigo que queria comprar e encontrou anunciado num “esquenta Black Friday”. Ao invés de estar mais em conta, aumentou muito. Isso me levou a pensar. Vários de nossos costumes e celebrações se vinculam à atividade comercial. Vi à venda, por exemplo, decorações de Halloween ao lado das natalinas, ainda no início do mês passado. Mas o Natal é só em 25 de dezembro! Qual o sentido de comprar enfeites e arrumar a casa para a ocasião desde outubro?
A Black Friday nasceu nos Estados Unidos, como uma oportunidade de o comércio se desfazer de estoques antigos por meio de promoções, abrindo espaço aos novos, a serem vendidos para o Natal. Ocorre numa sexta-feira, logo após o dia de Ação de Graças, na última semana de novembro. O termo, segundo pesquisei, surgiu, na Filadélfia, pelo estado caótico do trânsito nessa data, devido à enorme afluência de compradores. Posteriormente, se expandiu para o resto do país e todo o mundo.
No Brasil, ganhou feições bem características. Primeiro, não tem nenhuma relação com o dia de Ação de Graças, feriado norte-americano na véspera do evento. Em segundo lugar, não propõe uma sangria em estoques velhos, pois se chega a vender, inclusive, produtos que sequer estão estocados. Além disso, na ânsia de ganhar a corrida por consumidores, a data se expandiu para uma black week (ou seja, toda a semana), ou black novembro. Outra questão importante, exemplificada na constatação do meu marido, é o fato de nem sempre os preços estarem mais baratos. Pior: há casos em que são aumentados antes para, no dia D, serem reduzidos, às vezes acima do valor original. Tudo isso sem contar os golpes. Nessa onda, subjugadas pela massiva publicidade, muitas pessoas caem nas armadilhas e gastam além do que podem, com coisas as quais nem pretendiam adquirir.
Embora reconheça a relevância das estratégias de marketing para o setor comercial, gerando empregos e movimentando a economia, preocupa-me o culto ao consumo desenfreado. Educadores financeiros sempre alertam para a necessidade de fazer listas de desejos, pesquisar o comportamento dos preços, ater-se ao planejado e possível para cada bolso. Deixar-se seduzir pode até trazer vantagens para o comércio, tem, porém, o potencial de ser desastroso para o indivíduo e famílias, além de um custo ambiental e social.
Talvez valha a pena enxergar esse movimento pela metáfora da temporada de caça. Para não sermos presas, basta, então, inverter o jogo, ficarmos espertos e tirarmos proveito das ofertas, sem cair nas arapucas. Boas (e conscientes) compras!


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