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Projeto 16 horas – Edição: Set.25 – Artigo de opinião – Afeto, sexo e parceria nas entrelinhas do amor sólido – Luiza Moura

O amor sólido não é apenas permanência: é construção. Em um mundo marcado por vínculos cada vez mais frágeis, como destacou Zygmunt Bauman em sua teoria do “amor líquido”, falar de solidez pode soar quase como um ato de resistência. Não se trata de rigidez ou imobilidade, mas de um pacto vivo, um projeto em que afeto, sexualidade e parceria se entrelaçam como pilares de sustentação. O afeto, em sua essência, é a argamassa das relações. Não basta a paixão inicial, pois como lembrava Erich Fromm: “amar não é apenas um sentimento, mas uma prática, uma decisão diária”. O amor sólido é tecido no cuidado cotidiano, no gesto simples de quem se importa, no olhar que acolhe sem exigir perfeição. Fromm nos recorda ainda que o amor verdadeiro envolve quatro dimensões: cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Todas elas são formas de afeto que sustentam a intimidade. Mas falar de amor sólido sem falar de sexo seria mutilar a experiência amorosa. Sigmund Freud apontava que a sexualidade atravessa não apenas o corpo, mas a vida psíquica inteira, sendo uma das principais energias que nos movimenta. O sexo, quando inserido em uma relação sólida, deixa de ser apenas descarga de desejo e torna-se linguagem. É no encontro dos corpos que também se reafirma a confiança, a cumplicidade, a possibilidade de se despir não apenas da roupa, mas também das almas.

Ao mesmo tempo, o filósofo Byung-Chul Han alerta para a tentação contemporânea de transformar até mesmo a intimidade em performance. No livro A sociedade do cansaço, ele observa que vivemos na lógica do excesso de desempenho: tudo precisa ser produtivo, até o prazer. O risco, então, é que o sexo se torne apenas mais um espaço de cobrança, um “dever conjugal” ou uma métrica de sucesso. No amor sólido, ao contrário, a sexualidade se liberta dessa pressão. Ela é vivida como espaço de jogo, descoberta e encontro, não como fardo ou obrigação. A parceria, por sua vez, é a terceira coluna desse edifício. Mas é preciso cuidado para lembrar que parceria não é fusão. Lacan lembrava que “amar é dar o que não se tem a quem não o é”, o que nos convida a pensar que o amor não é completude, mas relação entre faltas. O parceiro sólido é aquele que caminha ao lado, não aquele que se confunde com o outro. É o apoio que dá chão, mas que também respeita a autonomia. Foucault, ao refletir sobre os dispositivos de poder, lembra que a intimidade é sempre atravessada por relações de força. Amar solidamente, então, implica também negociar, ceder e reivindicar, falar e escutar, permitir que o poder circule em vez de se fixar em dominação. A parceria madura reconhece essa dinâmica, transformando-a em diálogo e não em guerra silenciosa.

Se voltarmos à filosofia antiga, Aristóteles já dizia que a amizade é uma forma elevada de amor, porque nela se encontra o desejo do bem do outro pelo outro mesmo. Essa perspectiva se aplica ao amor sólido onde a parceria amorosa é, em muitos aspectos, uma amizade erótica, um vínculo que soma desejo e companheirismo, paixão e lealdade. É curioso notar que, mesmo em sua intensidade, o amor sólido não é grandioso apenas nos gestos épicos, mas sobretudo no cotidiano. São os pequenos rituais que mantêm a chama acesa: a xícara de café preparada, o abraço antes de dormir, o “como foi seu dia?” genuíno. Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, nos lembra que o amor é feito de signos, pequenos detalhes que constroem um idioma próprio entre os amantes. Assim, afeto, sexo e parceria não são elementos isolados, mas fios que se entrelaçam e formam o tecido resistente do amor sólido. Um amor que não teme a passagem do tempo, porque sabe reinventar-se diante das mudanças; que não foge do desejo, mas o acolhe como parte da vida; que não abandona a parceria, mas a transforma em base e em horizonte. Nas entrelinhas desse amor, há sempre um convite à criação: a cada dia, escrever juntos um capítulo inédito, onde o afeto aquece, o sexo conecta e a parceria sustenta. Amor sólido não é prisão, mas é, antes de tudo, liberdade compartilhada.

(Esse texto é da minha própria autoria- Luiza Moura de Souza Azevedo).

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