Por Elias Antunes
Neste livro de poesias “Funeral da Primavera”, Mauro Leslie desenvolve um percurso muito interessante, como uma viagem poética dentro do eu, mas expandindo-se nas visões e vidas externas e se abre nestes versos singulares:
“Tudo que pretendo e assino
se oficina arcaico,
tem suas distâncias de barco
afundado.
Eu, rio difuso,
invento, gesticulo,
dissimulo,
e quanto mais falo
mais me anulo.
Reconstruo-me
em desconstrução, nego-nos:
empurrado tenho o corpo
curvado a apanhar cacos
de um pensar vítreo,
por que se gritar, finjo;
se calar, minto;
sou outra religião, outro signo,
e mesmo dormindo sem mim
haverei de acordar comigo.”
(LESLIE, s/d, p. 19)
Mauro Leslie é um poeta maduro, cônscio de seu fazer poético, então labora a poesia em estâncias que abordam a natureza, o ser e o mundo:
“Entrará réstia em tudo que está e vibra:
meu sangue clorofila
no vítreo olhar dos rios
e pássaros; em verdes vinhos e azuis
nas veias da terra
correrão;”
(Fragmento)
(LESLIE, s/d, p. 70)
O livro “Funeral da Primavera” foi construído de forma a ter uma estrutura, um plano inicial, dividindo-se em 9 partes, pretendendo de maneira afirmativa formar um conjunto único, um bloco poético.
Há sempre imagens da natureza, permeando sua poesia, como a necessidade de o homem integrar-se à criação natural para recarregar suas forças:
“Venha, vamos ao
cheiro úmido das matas;
assistiremos
a rede armada, sozinha, olhando
o vento farfalhando o verde manto
que sai do tronco das árvores,
o balançar do galho quando assenta
o canário cobrindo,
enchendo,
com seu canto
o desmoronar da tarde
quarada de amarelo cobre.”
(LESLIE, s/d, p. 81)
Reconhece que nem tudo é programado, nem tudo segue uma diretriz previamente calculada. O destino, muitas vezes, é o maior mistério do homem:
“Barco à Deriva
Ora,
que poderia eu saber
por que treme
neste leme
meu viver
de barco à deriva.
Que poderia eu saber
nesta nova e mais antiga
pá
ciência
de ternura
o que me rompe
as asas
para o salto das alturas
mais distantes?”
(LESLIE, s/d, p. 109)
Mauro Leslie, poeta de grande imaginação e desenvoltura, com pleno domínio da arte da poesia, consegue abrilhantar a literatura de nosso Estado com este “O Funeral da primavera”.
Livro: Funeral da Primavera
Autor: Mauro Leslie
Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, de 2008.
Fonte da imagem: Foto do autor.


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