O melhor cachorro-quente
Eu saí de onde estava com fome e, pra piorar, a viagem de volta demorou mais do que o previsto. Depois do metrô, teria de andar apenas dois quarteirões até em casa, mas o cheiro que vinha de uma carrocinha de cachorro-quente em frente me arrebatou. Após um breve embate interno, em que a fome apresentou os melhores argumentos e deixou a razão nas cordas, atravessei a rua e fiz o pedido antes que me arrependesse:
– Quero um completo!
Não sei como é aí na sua cidade. No Rio de Janeiro, o cachorro-quente evoluiu do tradicional pão com salsicha para um aglomerado gastronômico de sabores os mais diversos. O tal do completo que eu pedi leva, sobre a salsicha, duas colheradas generosas de um consistente molho de tomate, cebola e pimentão. Em seguida, o atendente derrama sobre ele milho, depois ervilha, em seguida batata palha; no fim, uma ou duas borrifadas de maionese, catch up, e mostarda; a última camada é composta de queijo ralado e, acima de tudo e de todos, um ovo de codorna cozido, a equilibrar-se como um pingente sobre a massa calórica que o sustenta.
Comer um sanduíche desses exige, além do sistema digestivo disposto a desafios, habilidades e competências bastante variadas e específicas: força nos braços, equilíbrio, noção de espaço, abertura bucal, senso de direção, flexibilidade corporal e bons reflexos – para recuar o tórax antes de ser alvejado por um petit pois que escorregue da montanha gordurosa e venha lambuzar a camisa – além de muita, muita paciência.
Não se deve, acho, tentar abarcar o sanduíche por uma de suas pontas, mordendo-o até uns 5cm para dentro. Apontá-lo contra a própria boca, diretamente, como se ele fosse um enorme cachimbo comestível, não é anatômico, desafia a ergonometria e pode causar acidentes de graves consequências, para você e para quem está por perto. São poucos os seres humanos que têm esse dom. Tampouco, deve-se começar de baixo para cima. O ideal é diminuir ao máximo possível o monte calórico que ultrapassa os limites do pão para, então, atacá-lo como a um sanduíche qualquer.
Há quem opte por abater de primeira o indefeso ovo de codorna, pinçando-o com o polegar e o indicador, sem escrúpulos. Esse ingrediente é sabidamente um alvo fácil e pode ser abocanhado sem grandes dificuldades. Ele seria como os peões no xadrez. Apesar de ser um gesto covarde, reconheço, é o que normalmente faço.
Não sei ao certo o que fez o hot-dog se transformar nisso. Ele incorporou, como um smartphone gastronômico, outras funcionalidades. Deixou de ser um simples sanduíche, pra se tornar um verdadeiro rega-bofe, deixando para trás o segmento dos lanches para vir disputar ferrenhamente o mercado com o prato feito e com a refeição à la minuta.
O cachorro-quente se transformou. Lembro-me de comer a sua versão original – o prosaico pão com salsicha – , no Maracanã, na década de 1970. Bastava levantar o braço e grita – Geneal! -, e o vendedor, ato contínuo, arremessava o sanduíche, embalado num envelope plástico hermeticamente fechado na minha direção. Eu encaixava, como um goleiro seguro, o bólido voador e tratava imediatamente de começar a luta para abrir o invólucro. Depois de alguns segundos, enquanto eu ainda estava na primeira mordida, o vendedor chegava até onde eu estava para me cobrar o valor devido.
Havia também os triciclos espalhados pela cidade, nas portas dos cinemas – que eram na rua, acredite! -, das escolas, dos teatros, das casas noturnas e nas esquinas mais descoladas. Viravam imediatamente um point e se tornaram um símbolo do Rio, no século passado, como o são até hoje o biscoito Globo e o Mate da praia.
Terminada a refeição, caminhei satisfeito até em casa, de barriga cheia e com a crônica na cabeça. Alimento mais completo do que esse não tem.


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