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Todas as cartas de amor são ridículas

Aquele armário de guardar passado ao qual de vez em quando sou obrigado a retornar me pregou mais uma peça. Tive de acessar o portal para procurar um documento e dei de cara com ela, a carta. O envelope que a envolvia estava amassado e tinha uma mancha enorme cruzando-o obliquamente de cima a baixo. Na parte frontal, em letra miúda e nervosa, consegui ler meu nome completo como destinatário.

Virei-o com cuidado e li as informações constantes no verso, o remetente e a data, e, em frações de segundo, o algoritmo da memória, achou o momento em que o recebi: três ou quatro dias depois do meu aniversário de 22 anos. A remetente era uma colega de faculdade que trancou matrícula naquela mesma época, por razões que não revelou, e que nunca mais vi. 

Retirei com cuidado o papel bem dobrado e quase grudado no envelope, numa operação que durou alguns minutos. Não queria que ele se desintegrasse ao sair de seu sarcófago. Enfim, nas minhas mãos, desamassei meticulosamente a folha, também manchada, e olhei por alguns minutos para ela sem me deter em seu conteúdo textual. Ainda eram perceptíveis os coraçõezinhos cor de rosa que bordavam as margens, e as saudações iniciais estavam quase legíveis.

 Pus a folha sobre a mesa da sala, sentei-me solenemente diante dela, respirei fundo e dei a partida. A leitura foi difícil, quase uma perscrutação. A mancha cobria partes importantes do texto e tornara alguns cantos só borrão, o que praticamente impossibilitava a compreensão geral do conteúdo. Fiz conjecturas, ilações, tentando de todas as formas criar sentidos para os pedaços soltos que tinham escapado da mão pesada dos anos, tentando adivinhar os trechos que faltavam antes e depois deles. Uma palavra, porém, escapara dos ataques do tempo e do borrão e se repetia por toda a superfície da folha: “amor”. Ela boiava pela página como sobrevivente de um naufrágio.

Observava-a com cuidado. Ela impregnava tudo, acho que estava em todas as frases, às vezes até repetida. Além dessa, encontrei também, duas vezes, meio apagada, a palavra paixão e um pedaço do que imaginei ser a palavra carinho. Talvez tenha forçado a barra, vendo carinho onde estaria canino, carrinho, ou caminho, ou cravinho, sei lá. Talvez tenha sido o ambiente – a gente chama a isso de campo semântico – em que ela estava.  

Você já deve ter percebido, nem preciso dizer: era uma carta de amor. Não consigo me lembrar se ela me tocou na época, se a respondi ou se a considerei ridícula. O mais provável, em se tratando deste que vos fala, é que eu não tenha escrito de volta à remetente apaixonada. Provavelmente, depois de uma leitura rápida e desatenta, eu a tenha enterrado embaixo dos livros, no fundo da bolsa de couro que fazia parte do meu corpo, indefectivelmente, durante a graduação. O que explicaria a mancha que alguns livros e cadernos tinham também.

Sim, escrevi algumas cartas de amor ao longo da vida, ridículo que sou, também sem resposta como esta que recebi há mais de quatro décadas. O certo é que a carta, com enorme atraso, mesmo amassada, manchada, quase ilegível, me fez bem e reacendeu em mim sentimentos que estavam também soterrados, embaixo da pilha de dissabores que a gente esconde no coração ao longo da vida.  

Foi bom ter recebido a carta, mesmo tento tempo depois. Lembrei-me do jovem que fui, dos amores que vivi, sozinho ou platonicamente, das paixões que escondi, dos momentos enlouquecidos  que a paixão nos faz passar quando toma conta da gente, sem pedir licença e nos leva a fazer coisas ridículas, como escrever cartas de amor.

Sem mais, agradeço penhorado à missivista do passado por seu amor tão bem guardado e pelo bem que me fez hoje.

Um beijo,

Zé.


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