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SEMEADOR DE LIVROS

Quem gosta de livros organiza-os com carinho, mantendo-os razoavelmente dispostos sob uma lógica qualquer. Aqui em casa, por exemplo, há inúmeras prateleiras nas estantes, para os lidos e a destinada aos que esperam a vez de virem para minhas mãos e provar, sob meu olhar benevolente, que merecem continuar na estante, em tão boas companhias.

Há o setor de romances, em maior número, em que as obras são separadas cronologicamente, pela língua em que foram forjadas ou de acordo com a temática que desenvolvem.

Os contos ficam logo acima desses, espiando a prosa comprida e robusta que está no andar anterior. Percebo, às vezes, um olhar de desprezo dirigido pelos contistas aos romancistas, pela falta de poder de síntese dos que estão por baixo.  Mas, já senti o desejo quase incontrolável de um livro de contos de ir para a patamar dos romances. Até coloquei por engano, uma vez, um Dalton Trevisan entre o Jorge Amado e o Joaquim Manuel de Macedo.

Há Machados em cinco prateleiras, porque o cara jogava nas onze. Fora os que estão espalhados pela casa, na cama, no sofá da sala, no banheiro…

Lá embaixo estão os dicionários, sóbrios e balofos, a segurar com seu peso a estante toda. Acima, as gramáticas, algumas tão gordas quanto os vizinhos do térreo; outras mais longilíneas, porque não ingeriram as calorias empurradas pela norma.

Gosto de separar ficção e o resto. Deixo separada, na esquina, entre prosa e poesia, a galera da psicanálise, da sociologia, da antropologia, da linguística, da análise do discurso e todos os que em vão tentam explicar a linguagem, o sexo, o amor a morte e a morte.

A poesia tem um cantinho só dela, mas como Machado, anda pela casa toda. Tenho Cecílias e Adélias, Quintanas, Drummonds e Pessoas por todo canto, até dentro da indefectível mochila que me acompanha, como uma corcunda, pelos lugares que ainda vou.

No entra e sai dos livros na estante, às vezes, encontram-se obras díspares, que deveriam estar em lugares distintos, cada qual no seu século, conforme o seu gênero, de acordo com o ismo a que serve. Assim, flagrei, dia desses, o Livro do Desassossego ao lado do Grande sertão. Não sei o que conversaram, nem por quanto tempo, o lisboeta e o cordisburguense, mas acho que ficaram bem juntos.

Não gosto de espremer os livros e os disponho de maneira a ler a lombada de cada um sem dificuldade. O tamanho nunca é um critério: arrumo juntos baixinhos e longilíneos; gordinhos e magrelos, elegantes – os de capa dura, letras bordadas, cores sóbrias – e os malvestidos. O que importa é a essência.

Tenho com os livros uma relação de amizade; assim como tenho com os amigos de carne e osso: há os que vejo mais, os que vejo de vez em quando e os que quase não encontro, mas sei que estão à minha disposição, prontos para um diálogo franco, para me dizer o que eu preciso ouvir, no momento em que eu precisar deles.  Sei exatamente quem me fará sorrir, se for o caso, e o que me fará refletir sobre a vida e me dará a palavra certa, como um remédio, para o mal de que padeça.

Quem semeia livros, como eu, rega-os com o olhar, diariamente, revolve a terra em que os plantou, para livrá-los das ervas daninhas e colhe de cada um, no momento propício, o fruto maduro, nutritivo, amargo ou dulcíssimo que se extrai de cada leitura.


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

Registrada sob o ISSN 2764-2402, a revista é totalmente eletrônica e acessível, com publicações regulares que abrangem poesia escrita e falada, crônicas, ensaios, entrevistas, ilustrações e outras formas de expressão artística. Seu objetivo é tornar a arte acessível, difundindo-a por todo o Brasil e além de suas fronteiras.

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