O ASSALTO
Suzane Veiga
Era o final da tarde de um dia quente de verão e o sol morria ao longe no céu úmido de fevereiro. O ônibus seguia a sua rota pela rua Dr. Nilo Peçanha, plantado como um carvalho no meio de um grande engarrafamento, típico da hora do rush gonçalense. Nele, uma garota ruiva apoiava a testa na janela, observando a paisagem. Ela roía as unhas, apalpando, com mãos quentes, o rosto vermelho. O suor descia pelo pescoço, encharcando a camiseta do uniforme do município. É que o ar condicionado do 515 havia quebrado e, de tanto suar, o emblema da prefeitura já estava todo molhado. Nenhuma novidade, pensou Juliana com os olhos salgados, acostumada que estava a passar calor diariamente na sala de aula de sua escola, que não foi climatizada até hoje – aliás como a maioria dos colégios municipais de São Gonçalo.
Do lado de fora do ônibus, um grupo de pessoas chamou sua atenção. Eram homens e mulheres, jovens e velhos, quase despidos. Estavam apinhados na calçada, caminhando de um lado para o outro sem destino. Trocavam objetos entre si e ateavam fogo no ar. Bem em frente ao RodoShopping fechado, amontoavam-se também toda a sorte de detritos de lixo a céu aberto. Eram cobertores estragados, pedaços de papelão, restos de comida, frascos usados, carrinhos velhos de supermercado, fezes, colchonetes e até ursinhos de pelúcia apodrecidos. Ao avistá-los, a moça de sardas franziu a testa e perguntou para o homem ao lado:
– Com licença, o senhor sabe o que é aquilo?
– Deve ser uma cracolândia, nunca tinha visto? — respondeu ele voltando-se para o seu celular.
Ela afiou o olhar para analisar a aglomeração, mas o vulto de um menino a fez desviar os olhos. Ele havia saído do canteiro, onde estava a pequena multidão, e cruzava a pista, em disparada. Corria entre os carros, ensaiando passos largos, como se dançasse a valsa da morte. Não devia ter mais do que treze anos. Sem camisa, uma bermuda preta surrada mal escondia o corpo minguado. Com uma garrafa vazia de água em uma das mãos, fazia gestos grandiosos no ar, brigando com algum monstro invisível.
O motorista do Rio Ita havia acabado de parar no ponto para liberar passageiros, quando o garoto entrou na lotação. Subiu rápido as escadas, pulou a roleta e permaneceu em pé, com os braços estendidos. Algumas pessoas, ao identificarem sua presença, começaram a gritar. Uma senhora, no banco da frente, apertou a bolsa e fez uma oração. Duas meninas, na parte de trás, abraçaram-se, chorando. A mulher de cabelos vermelhos escondeu o rosto. Um homem idoso falava muito, movimentando as mãos trêmulas. Fez-se, porém, silêncio quando o garoto sacou do short uma faca.
Dois policiais numa viatura do Segurança Presente faziam ronda na Praça da Marisa e perceberam a movimentação, correndo até o local para ver o que estava acontecendo. Ao verificarem o adolescente com o punhal, apontaram as armas de fogo em sua direção. Gritaram ordenando que o menor desistisse do assalto, jogasse a faca para longe e colocasse as mãos na cabeça. A reação das pessoas se intensificou e a confusão pareceu se instalar no coletivo. O garoto, imóvel, não deu o menor sinal de resposta física ao pedido dos oficiais. Os agentes, então, o chamaram novamente. Mas o jovem se manteve na mesma posição, cravando os olhos num ponto fixo do horizonte.
De repente, num movimento ágil de braço, o garoto enfiou a lâmina fundo no seu próprio abdômen. Caiu lentamente de joelhos, vindo a atingir o chão depois de poucos segundos. Logo em seguida, os policiais entraram rapidamente no ônibus e perguntaram se todos estavam bem, averiguando se o assaltante estava mesmo morto. Estava. Algumas pessoas da condução aplaudiram, felicitando os fardados pelo sucesso da operação. As duas meninas que choravam, agora tiravam fotos sorrindo ao lado do morto para postar no Instagram. O senhor idoso afirmou, recuperando o fôlego, que não se podia nem mais andar de ônibus em paz. Uma pessoa vomitou. A mulher suada, de rubras bochechas, olhou bem na direção do corpo inerte, dizendo ser apenas uma criança. Os policiais arrastaram o cadáver para a viatura. Falaram assim: que o presunto era surpreendentemente leve. A última pessoa a pronunciar algo foi a senhora do banco da frente. Ela, enfim, libertava a bolsa, declarando com voz resoluta:
-Deus sabe de todas as coisas


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