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Projeto 16 horas – Edição: Fev.25 – Conto: “A Invenção do Beijo” – John Soares Cunha

A Invenção do Beijo
John Soares Cunha

Drummond disse, em crônica de 1967, que o beijo é “em si coisa sem pecado, necessária ao equilíbrio psicossomático”, mas silenciou sobre a origem desse ato tão difundido na sociedade. Quando surgiu? Em que circunstâncias? Quem o inventou? Nada disso Drummond abordou. Talvez não o soubesse, ou preferiu deixar para outro cronista revelar a origem.
O beijo nasceu rude, sem nome, de forma animalesca. E a história foi assim.
Largado no sofá só de tanga, Adão acariciava a cabeça do cachorro deitado no chão. A expulsão do Éden foi a primeira causa de crise existencial no homem, deixando-o depressivo, sem expectativas de vida. Entre um suspiro e outro, Adão era enxotado para fora de casa:
– Vá trabalhar, Adão! A comida tá acabando! Só fica aí de barriga pro ar! – Eva gritava.
– No paraíso é que era bom. E a culpa é de quem? Preciso aprender a ter minhas próprias opiniões…
– De novo essa história?!
Adão não tinha ânimo para retrucar. E nasceu ali o costume masculino de calar diante dos problemas de relacionamento, como se eles se solucionassem por si sós ao serem ignorados. Adão se calou e se preparava para levantar do sofá quando o cachorro, único animal que não os abandonara após a expulsão, lambeu a boca de Adão.
Aquele comportamento inesperado, por algum motivo misterioso, fez Adão se lembrar de que ele ainda estava vivo, de que a vida não era só suor, sangue e lágrimas. “Do suor do teu rosto comerás”, mas há que se ter também alguma alegria, ora essa! Um arrepio na nuca foi o que ele sentiu quando a língua do cachorro tocou seus lábios. Que sensação estranha era aquela? Foi aí que ele teve uma ideia. E se…
Rapidamente foi até Eva e se fez de bobo:
– Meu fruto proibido, antes de arar a terra, quero te mostrar uma coisa que aprendi.
Eva parou de coser para prestar atenção, não que tivesse interesse em descobrir o novo aprendizado, mas sim porque quanto mais rápido ele o mostrasse mais rápido sairia de casa.
– Feche os olhos – ele pediu –, quem não gosta de surpresas?
– Palhaçada. Anda logo! – Eva ordenou.
Adão deu um passo para frente, parou diante da mulher e lambeu-lhe os lábios.
– E então? – ele perguntou, curioso em saber se a lambida funcionaria com Eva como funcionou com ele.
Fazendo careta de quem come jiló cru, Eva respondeu, limpando a boca:
– Quem te ensinou essa nojeira?
Adão respondeu que ninguém, a ideia era dele, surgida das horas tediosas de ócio etc.
– Vamos tentar de outro jeito – Eva sugeriu. E complementou: – Enfie a língua na minha boca.
Mas o cachorro não fez isso comigo, ele pensou, e disse:
– E você vai fazer o que com ela? Chupar feito um caroço de manga?
– Ou uma banana.
– O quê?
– Nada. Vem logo!
Adão obedeceu. Lá foi sua língua inexperiente abrir caminho por entre os dentes para encontrar a língua de Eva.
Eva chupou e mordeu a língua de Adão. E nessa operação (desculpe o eco), e nessa operação os lábios, é lógico, se tocaram diversas vezes, quentes e úmidos.
Faltava agora um nome para aquela invenção coletiva do cachorro, em seu ato de amor incondicional, de Adão, que gostou da ideia, e de Eva, que a aperfeiçoou.
– Podemos chamar de boca – sugeriu Eva.
– Não. Boca já é o nome da boca.
– E se a gente chamar de bo-bo-ca? – a lógica de Eva era inegável. Boca na boca, boboca.
– Isso tem cara de xingamento. Melhor outro nome.
– Diz você então. Você que recebeu a missão de dar nome para as coisas.
Adão refletiu um pouco, e pensou que uma palavra feminina seria mais expressiva:
– Vou chamar de vagina.
– Quem é Gina? – Eva cruzou os braços na altura do peito.
– Deixa de ciúmes! Você tira qualquer um do sério! Melhor é eu ir trabalhar mesmo. Depois penso em um nome.
– Adão… – Eva descruzou os braços, as bochechas um pouco avermelhadas.
– Que é!?
– Enfia a língua de novo.
E assim nasceu o beijo, rude, sem nome, e de forma animalesca.


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Criada em 2020 pelo professor e poeta Renato Cardoso, a Revista Entre Poetas & Poesias é um periódico digital dedicado à valorização da literatura e da arte em suas múltiplas expressões. Mais que uma revista, é um espaço de conexão entre leitores e autores, entre a sensibilidade poética e a reflexão cotidiana.

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